Agosto 27 2007
Já alguma vez foram julgados pelo que sofreram sem ser dada importância ao que fizeram, seja isso bom ou mau? Por algum instante, sentiram que existe um vazio dentro de vós maior do que aquilo que o vosso ser preenche? Em algum momento abdicaram de tudo o que o destino vos ofereceu para procurar liberdade?
Estas são algumas das questões que inquietam os três principais personagens da quarta obra do Ciclo de Terramar, Tehanu – O Nome da Estrela.
Quando acabei o livro anterior, julguei estar a despedir-me definitivamente das fantásticas personagens que havia encontrado até li, nesta série. Por esta razão, fiquei realmente contente quando li pela primeira vez a sinopse deste novo livro, já que não só Gued, o principal herói, continua a fazer parte do enredo, como Tenar e Arren reaparecem, trazendo à memória antigos cenários e aventuras. Contudo, este livro acrescenta muito de novo a este mundo.
Pela primeira vez, uma obra da série começa onde a anterior terminou. Quando Gued, em A Praia Mais Longínqua, cumpriu a sua missão, acabando por perder os seus poderes, partiu para a sua terra natal, afim de viver lá até que a morte viesse buscar o seu corpo. É aqui que esta história começa, mas com outras personagens.
Tenar, antiga sacerdotisa de Atuan, é agora uma viúva que vive a sua vida como qualquer outra mulher, como desejou. No entanto, a sua vida muda quando uma criança, violentada e maltratada pelos pais, é encontrada, meia morta e a arder, perto da aldeia. De imediato, Tenar toma responsabilidade sobre ela, e passa a chamar-lhe Therru, fogo na sua língua materna. Mas esta não é uma criança como as outras: desfigurada pelo fogo e traumatizada pelo tormento por que passou, a criança é ainda descriminada pelo que se sucedeu, pois “cada um tem culpa pelo que é”.
Vindo da praia mais longínqua montado num dragão, Gued encontra mulher e criança, e é então que a acção se desenvolve. Desta vez, a magia parece passar despercebida, com pouca importância, mas a verdade é que a magia vive dentro das personagens, fazendo parte delas, sendo ou não manifestada.
Embora não pareça ser o principal mote da história, nesta obra as raízes das trevas do livro anterior mostram poderem ser ainda maiores que o próprio tronco. Contudo, no final, quando o lado selvagem e o lado humano de Therru, a estranha menina, se fundem, todas as sombras se apagam sobre a luz do fogo que arde nela.
Therru revela-se mais uma personagem incrível, daquelas que nos maravilha e entristece, Tenar volta a deslumbrar e a prender o leitor, e Gued, que já não parece sábio e poderoso, mostra como a vida pode sempre recomeçar. No fundo, é mais uma grande obra de Ursula K. Le Guin, que volta a primar pela originalidade e beleza.
Ao fim duma página já sorria de contentamento ou nostalgia, não sei bem, pois afinal, em Terramar, todos os sentimentos se fundem como as gotas num grande mar. As emoções, são como ilhas selvagens...
Não vou arriscar se é desta que as personagens se despendem ou não, mas acredito, devido a uma simples frase, que Therru e restante personagem voltarão... felizmente!
Uma série recomendadíssima!

Tehanu – O Nome da Estrela de Ursula K. Le Guin

Até Breve e Boas Leituras!!!

Publicado por Fábio J. às 23:41

Agosto 21 2007
Pensava que, por estar de férias, teria bastante tempo para o blog, publicando frequentemente, mas como se pode notar não é bem assim. No entanto, acho que o problema não é só meu: Agosto parece não ser um bom mês para este mundo virtual.
Apesar disto, acabei ontem de ler Anders 4 – O Deus dos Elders, e com ele a tetralogia alemã de Wolfgang e Heike Hohlbein. Apesar de haver uma continuidade literal entre todas as obras, arriscaria dizer que a qualidade aumenta de livro para livro. Ou isso, ou eu pura e simplesmente acabei por me render a esta narrativa.
Depois do final em aberto de Anders 3, estava bastante curioso para conhecer os acontecimentos seguintes. E quando estes começaram não mais pararam. Neste volume, Anders, o protagonista, passa por todos os cenários alguma vez narrados na série, cruzando-se com todo o tipo de respectivos seres: afinal, é a última vez.
Preso num vale onde os humanos não mais são do que um povo entre elfos, trolls, homens-animais e muitas outras criaturas, e a justiça guerreia o poder, Anders continua a sua demanda na tentativa de sair dali e a alertar o mundo do mal que ali se passa.
Acompanhado por Boris, um troll com humor mordaz, e mais tarde, novamente, por Katt, a rapariga-gato, Anders insiste na sua fuga aos dragões, aos Elders, e até ao seu próprio pai. Incapaz de concretizar os seus intentos da forma que queria, acaba por engendrar um plano em maior escala, onde não podem existir erros.
Apesar de tudo, estes sucedem-se. E quando tudo parece estar perdido só mesmo um deus, o deus dos Elders, o pode ajudar.
Esta é uma história recheada de batalhas, traições, romance, humor e drama, dentro dum género que se encontra algures entre a Fantasia e a Ficção Científica. Confesso que por vezes os acontecimentos parecem um pouco forçados pelos autores, a fim de proporcionarem determinado acontecimento, e as questões que ficam por esclarecer ainda encheriam muitas páginas.
No entanto, o derradeiro fim foi bastante surpreendente, principalmente por apresentar uma perspectiva um pouco diferente sobre aquele mundo e dar a conhecer algumas interessantes particularidades sobre as personagens. Sinceramente, já esperava que Anders tivesse o destino que teve, mas mesmo assim não deixou de ser adequado e de me deixar com um sorriso no rosto, ou seja, gostei bastante do livro e recomendo.
Um livro empolgante, que encerra esta original e surpreendente história.
Anders 4 - O Deus dos Elders de Wolfgang e Heike Hohlbein
Até Breve e Boas Leituras!!!
Publicado por Fábio J. às 22:13

Agosto 13 2007
Sei que o blog tem estado desactualizado, mas digamos antes que esteve de férias... Férias que, já agora, não demorarão muito a acabar, para todos nós. Estive há pouco, só por curiosidade, a ver o calendário escolar do próximo ano e acabei por me deparar com a nova Reforma do Ensino Secundário. Se há coisa que este Ministério não se cansa de fazer são reformas: é bom sinal, já que se espera que sejam para melhor. O problema é serem tantas (sinal de que muito anda mal) e contraditórias entre si (sinal de não andam a resultar). E o pior, como alguém disse, é que para os de agora aprenderem melhor os de antes passam a não saber nada...
Mas enquanto as férias duram é possível prestar atenção a outras coisas, tal como fiz esta tarde, ao acabar o Senhor dos Anéis. A história em si conclui-a antes, mas só hoje li os últimos apêndices.
O segundo volume revelou-se um pouco mais interessante do que o primeiro, mas o Regresso do Rei supera-os. Neste último volume a acção é contínua, o suspense maior e as surpresas, que tanta falta faziam (e que eram poucas devido aos filmes), estão em muito maior número e mais deslumbrantes.
Como seria de esperar a narrativa continua onde havia parado, e mais uma vez está dividida em dois livros, sendo primeiramente descritas as decisivas batalhas dos grandes exércitos e depois a aventura de Frodo e Sam. Contudo, ambas acabam por se unir, já que afinal tudo e todos estão dependentes do mesmo: o destino do Um Anel.
Cada vez mais separados, os membros da Irmandade começam a cumprir novos propósitos, arriscando tudo e deparando-se com difíceis escolhas. Meriadoc com Rohan, Pippin e Gandalf com Gondor, Aragorn, Legolas e Gimli pelo Caminho dos Mortos: todos na mesma batalha, todos na derradeira luta contra a Sombra.
Enquanto isso, Sam volta a mostrar de que é capaz um hobbit, revelando-se fundamental nesta batalha, fiel e detentor duma força sem a qual o portador do Anel não resistiria. A jornada destes dois hobbits é incrível, mas mesmo entre a dor, a fome e a sede a esperança continua.
Eis que o Anel é destruído, e com ele Sauron, o grande Mal que atacava a Terra Média. Por fim o objectivo é cumprido, numa luta em que cada um exerceu o seu papel.
Mas a história não acaba aqui (ao contrário do filme), e muito de novo é contado. O povo volta a ter um Rei e uma nova Era abre-se aos Homens. Ao regressar a casa, depois destra estranha e difícil viagem, os quatro hobbits mostram que mudaram durante esta e que agora qualquer desafio está pronto a ser ultrapassado.
Resta dizer que o livro contém ainda pouco mais de 100 páginas de apêndices onde Tolkien nos conta alguns pormenores contextuais à história, bem como algumas notas sobre a Terra Média, as suas Eras, os seus povos e as suas línguas, o que não deixa de ser interessante
No entanto, continua a haver um fim. O fim duma Era, dum povo, duma história. E numa história como esta, avassaladora e inigualável, o fim não pode ser descrito, pois é um momento único para o leitor.
O último livro da Trilogia, uma leitura fundamental.

O Senhor dos Anéis - O Regresso do Rei de J. R. R. Tolkien
Até Breve e Boas Leituras!!!
Publicado por Fábio J. às 22:56

Agosto 12 2007
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
Orfeu Rebelde de Miguel Torga
Há 100 anos nasceu Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia Rocha), aquele que é hoje considerado “o escritor mais autenticamente português”. Formado em medicina, foram as histórias, os diários e os poemas que tornaram Torga uma referência da literatura portuguesa. Homem do mundo, vivia para cantar a sua terra, a sua identidade transmontana, portuguesa e ibérica, uma cultura que o alimentava e sustentava e para a qual ele contribuiu singularmente.
Sempre ligado à Natureza, Torga tornou-se o Orfeu português, uma personagem única e autêntica que perdurará pelos tempos, tal era a alma da sua escrita.
Miguel Torga morreu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995. Foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.
Do escritor apenas li um livro de poesia e parte dum diário. Estou a pensar reler todo este diário, nesta ocasião. Embora a sua lírica não seja a minha favorita, admiro a infindável busca pelas raízes e a forte ligação à terra que este autor nos apresentou. Talvez tenhamos algo a aprender com ele.
Boas férias e Até Breve!!!
Publicado por Fábio J. às 20:25

Agosto 03 2007
Este é o primeiro post que escrevo em papel. Normalmente escrevo usando o teclado, fitando uma tela branca, sem ensaios; mas tenho andado sem paciência para o moderno maior amigo do homem: o computador. Por isso mesmo, nada melhor do que pegar na caneta e faze-la dançar sobre a folha branca.
Antes de mais, uma notícia que teria sido oportuna no post anterior, mas só agora descoberta: na próxima Primavera chegará ao cinema a adaptação do quarto livro d’As Crónicas de Nárnia, O Príncipe Caspian. Não querendo opinar sobre esta adaptação saliento apenas que esta será mais uma boa oportunidade para cativar a atenção de potenciais leitores para a série. No final todos ficarão ganhando: o filme reclamará a qualidade do livro e este a popularidade do filme. Um mútuo marketing, com bons lucros.
Como já aqui disse, os livros necessitam acompanhar a evolução dos tempos. Num mundo consumidor, as editoras apostam no marketing para venderem os livros, em busca do importante lucro. Não sou especialista em publicidade e técnicas de venda, mas achei o termo “retromarketing literário” muito apropriado para o que se passa hoje em dia. Dois exemplos:
O Código da Vinci é apenas um livro. Talvez cative o público pelo tema, mas o mesmo acontece com muitos outros títulos. No entanto, não são todos os títulos que recebem críticas do Vaticano. Pondo em prática o provérbio de Adão, “O fruto proibido é o mais apetecido”, eis que este se torna num romance conhecido mundialmente, que transporta o autor para os tops e dá origem a um criticado filme.
Vejamos agora o exemplo do Harry Potter. Os primeiros fãs terão sido conquistados pelo “passa a palavra”, mas depois dos livros, filmes, jogos, especulações e com um inigualável leque de blogs e sites a tratar do tema, podemos dizer que o mundo está, hoje, potterizado. Este é, aliás, o melhor exemplo de “retromarketing literário”, já que segue as 5 “artes” desta moderna técnica de publicidade criada por Stephen Brown:
1: Todos os fãs fazem parte duma comunidade mundial, que os liga a todos, e a obra é hoje um objecto de culto, uma colecção. 2: Existe o máximo mistério. Um clima de intriga total até ao lançamento, o que proporciona um ambiente único. 3: As surpresas são amplificadas ao máximo, empolgando os fãs e, se for necessário, chocando-os. 4: A especulação, mesmo que totalmente inventada, é bastante entusiasmante. 5: Toda esta publicidade acaba por ser entretenimento, divertindo e estimulando o cliente! Digam lá se o Harry Potter não reúne todas estas “artes”?
A verdade é que resulta, e mesmo que os fãs indiquem outros factores para seguirem as obras, como a qualidade destas, não podem negar a realidade que existe por trás, tornando o livro um produto competitivo.
No mês passado, os visitantes do blog puderam dar a sua opinião em relação a este tema. Muitos confessaram que, no meio de tanto entretenimento, especulações e “obscuras” técnicas publicitárias, a qualidade da obra pode ser manchada, sendo até, em casos extremos, descredibilizante para a literatura. Houve, no entanto, quem considerasse que este é o futuro da literatura, quem sabe uma forma de a tornar mais pública e competitiva, aliando a cultura ao entretenimento. Dentro desta expectativa houve ainda quem achasse que este é o marketing ideal, talvez um exemplo a estender a todas as obras, saciando o consumidor duma forma agradável. Por fim, ainda espaço para aqueles que simplesmente consideram esta simples publicidade, talvez apenas uma forma diferente de vender o produto. E já agora, as minhas desculpas se usei um neologismo demasiado estranho.
Numa cultura tão vasta, o retro pode ser moda, e com uma jogada ofensiva ainda pode levar-nos a comprar e adorar produtos que doutra forma nem conheceríamos.

_________________________________

 

O "retromarketing literário" é, para a literatura:

 

39.13% uma “mancha”
8.69% o futuro
17.39% o ideal
34.78% simples publicidade

 

Total: 23 respostas

 

Boas Férias! Boas Leituras!!!

Publicado por Fábio J. às 23:15

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