Março 31 2009
"intensa, comovente e dilacerante"
Já há muito que não publico, embora também há muito o queira fazer, sobretudo porque quero partilhar a minha opinião sobre o último livro que li: A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos.
Embora não seja a primeira vez que leia este autor português, o seu estilo foi uma verdadeira surpresa, já que neste livro ele revela uma faceta inédita, mas com muito mais sentido, pois é mais realista e jornalística. Diria até que, neste livro, ele revela todas as suas capacidades.
Trata-se do primeiro romance do autor, tendo sido publicado muito antes das obras que o tornaram famoso. Em vez de mera especulação, o autor debruçou-se sobre a realidade, contando-nos, através da ficção, verdades cruéis e assustadoras. Na verdade, a obra parece-me mais um ensaio do que propriamente um romance, devido ao predomínio dos factos históricos.
Paulino da Conceição é apenas um dos timorenses que viveu todas as barbaridades que se seguiram à saída dos portugueses de Timor-Leste e, apesar de não o considerar a personagem principal da obra, foi, sobretudo, através dele, dos seus traumas e reflexões, que pude compreender as verdadeiras implicações de tal evento. É uma personagem muito humana e crível, mas a personagem principal da obra é, sem dúvida, o povo timorense, que tanto sofreu.
Nesta obra, são narrados os principais momentos da instabilidade política vivida na, então, recente ex-colónia portuguesa. Desde a insegurança interna inicial até à independência oficial do país, passando pela catastrófica invasão indonésia, o leitor encontra nesta obra a realidade dramática vivida por um povo irmão que, literalmente, foi chacinado com uma brutalidade animal e odiosa. Desconhecia muitos dos factos que culminaram na célebre independência de Timor-Leste e, por isso, este livro surpreendeu-me e abalou-me.
A história é contada com precisão e sem melodrama, mas é intensa, comovente e dilacerante. O facto de a saber real obrigou-me a parar para pensar no quão abominável e nojenta consegue ser a espécie humana, capaz de realizar males que envergonham a civilização.
A meu ver, é uma óptima criação literária, na medida em que consegue aliar realidade e ficção na perfeição, captando a atenção e emoção do leitor, levando-o a reflectir. A narração é simples e directa e, embora por vezes caia na monotonia, adapta-se muito bem ao conteúdo, fomentando a análise e crítica dos acontecimentos narrados.
Em suma, A Ilha das Trevas é uma obra muitíssimo diferente da conhecida ficção do autor, sobretudo devido aos acontecimentos históricos analisados em retrospectiva. Vale a pena lê-la, pois é impossível ficar indiferente ao que revela.
A Ilha das Trevas de José Rodrigues dos Santos
Links: Timor-Leste (Wiki)
Até Breve e Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 22:32

Março 15 2009
Antes de mais, quero agradecer aos visitantes deste blog. Tenho de faze-lo, pois continuam a visitá-lo mesmo com a escassa actualização dos últimos tempos. Muito obrigado!
Também tenho tido pouco tempo para me dedicar à leitura, mas quando o faço é reconfortante estar noutras vidas, noutros mundos e noutras histórias, enfim, estar em mundos paralelos.
Um bom exemplo de mundo paralelo está presente na obra Coraline e a Porta Secreta, de Neil Gaiman. A obra, vencedora do Hugo Award for Best Novella e do Nebula Award for Best Novella de 2003 e do Bram Stoker Award for Best Work for Young Readers de 2002, foi publicada há já alguns anos, mas merece agora destaque devido à recente adaptação para cinema e à reedição do livro no nosso país, por parte da Editorial Presença.
A história da Coraline foi já comparada à história da Alice, aquela que acidentalmente vai ter ao denominado País das Maravilhas. Contudo, embora existam traços gerais semelhantes, esta história prima pela criatividade.
A protagonista da história é uma exploradora inata, e a sua nova casa constitui um bom local a investigar. Pouco depois de se mudar, Coraline, seguindo a sugestão do pai, decide contar todas as portas e janelas da casa. Para seu espanto, descobre que uma das portas não leva a lado nenhum, pois tem uma parede do outro lado. No entanto, nem sempre é assim…
Quando menos espera, descobre que ali existe uma passagem secreta e que do outro lado está… está uma casa quase igual à que deixa para trás, mas mais surreal e fantástica, mais atractiva, assim como uns outros pais, também eles adoráveis. Tudo é estranho, perigosamente estranho, e Coraline terá de ser esperta e corajosa para poder viver e salvar aqueles que ama e que realmente a amam.
Trata-se de uma história de fantasia com um toque de terror muitíssimo empolgante. O surrealismo e criatividade constantes criam um universo de fantasia e magia que se destaca e que me despertou a curiosidade. A aventura de Coraline é contada com grande simplicidade e está muito bem estruturada, o que se traduz numa leitura dinâmica e entusiasmante.
A simplicidade da narrativa é, precisamente, um dos pontos deve ser referido. O autor sabe que tem uma boa história para contar e, por isso, fá-lo sem rodeios mas com todos os pormenores e observações fundamentais.
A mensagem subliminar presente ao longo de toda a obra e a moral que a remata fazem dela um clássico moderno, quanto mais não seja porque, hoje, todos temos um pouco de Coraline.
Vale a pena lê-la. E eu já tenho Neil Gaiman debaixo de olhos.
Coraline e a Porta Secreta de Neil Gaiman
Fantásticas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 21:53

Março 01 2009
Terminei o meu texto sobre a Filha do Sangue antevendo uma leitura mais agradável no volume seguinte da Trilogia das Jóias Negras. Felizmente a minha previsão concretizou-se, já que a Herdeira das Sombras revelou-se uma obra bastante mais clara e entusiasmante. E se por um lado o conhecimento adquirido no livro anterior foi decisivo para a compreensão da história, por outro parece-me que, desta vez, Anne Bishop dedicou mais páginas à explicação de conceitos e pormenores do seu universo.
No volume anterior Jaenelle, a protagonista da trilogia, passou por uma provação quase fatal que a levou a refugiar-se no Reino Distorcido. Neste volume, acompanhamos a ascensão da jovem que, apesar das dificuldades e dos inimigos que a pretendem usar, consegue não só recuperar mas também tornar-se na rainha mais poderosa, naquela que todos esperavam, desejavam e temiam: a Feiticeira.
Ora, neste livro a criatividade da autora continua a mostrar-se admirável. Surgem várias novas personagens, algumas delas muitíssimo bem criadas, com personalidades e características dignas de referência. Posso até afirmar que assistir ao crescimento dessas personagens consegue ser tão fascinante como assistir ao desenvolvimento de Jaenelle. E já que me centrei nas personagens, vale também a pena mencionar as já presentes no primeiro livro, nomeadamente Saetan e Lucivar, homens sem as quais a poderosa mas instável feiticeira não conseguiria vencer as diversas provações de que é vítima. Lamento o pouco protagonismo que a autora deu a outras personagens com grande potencial, mas ainda assim creio que, em parte, foram as personagens que compensaram os momentos mais monótonos ou desinteressantes da obra.
Para além das personagens, a autora mostra a sua criatividade também nas diversas criaturas inteligentes que nos apresenta. Num universo tão criativo, este era um pormenor que merecia ser desenvolvido e ainda bem que o foi, pois dá-lhe um toque duplamente fantástico.
Quanto à narração e ao estilo, não tenho dúvidas que ler a Herdeira das Sombras proporcionou-me vários bons momentos. Recordo-me de, a certa altura, ter parado a leitura, rindo-me e murmurando “genial, genial!”, tal foi a surpresa e criatividade do episódio. Diria que a história é contada de uma forma mais simples e directa do que no livro anterior, mas existem ainda situações aparentemente supérfluas. Há ainda um tom irónico e bem-humorado que não se destacavam anteriormente mas que, nesta obra, constituem um ponto forte da narrativa.
Trata-se de um romance extenso, dividido em cinco partes. Para lê-lo é necessário ler o livro precedente, embora ler um e ler outro sejam duas experiencias bastante diferentes. Estou bastante curioso em relação ao que possa encontrar no volume seguinte. Afinal este livro não me desiludiu, antes pelo contrário, agradou-me bastante. Se a tendência continuar, o próximo será um livro excelente. A ver vamos…
Herdeira das Sombras de Anne Bishop
Boas leituras!
P.S.: Muitos parabéns aos Blogs do SAPO pelos três anos de existência que hoje comemoram!
Publicado por Fábio J. às 18:50

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