Maio 16 2010

Alheios às inúmeras discussões sobre o Fantástico nacional, vários autores portugueses continuam a escrever e a publicar obras daquele género. Sandra Carvalho é um deles. Há mais de cinco anos, deu início à Saga das Pedras Mágicas e conquistou os seus leitores com as aventuras e o amor de Catelyn e Throst. Com a sucessão dos volumes, sucederam-se as gerações e surgiram novos protagonistas, novo enredo e novas lutas, mudanças que nem sempre me agradaram.

No quinto volume, Os Três Reinos, Edwina mantém-se heroína e narradora da história. Mais uma vez, é difícil resumir o seu percurso, dada a ausência de uma linha consistente que oriente a acção. As pedras mágicas têm cada vez menos importância, as profecias tornaram-se banais e até as relações familiares perderam a complexidade que outrora envolvia o leitor. Mesmo assim, este é um volume de resoluções e muito sucede. Finalmente, profecias são cumpridas e inimigos derrotados, casais unem-se e celebram o seu amor, velhas histórias terminam e respostas são dadas. Por tudo isso, aplaudo a autora.

Há ainda um outro aspecto que devo destacar: a magia. Se nos volumes anteriores a magia, suposto ponto central da história, era muitíssimo limitada e estava quase restringida aos malfeitores, neste volume já é possível assistir ao uso completo dos encantamentos e feitiços por parte dos heróis. Este pormenor torna as batalhas mais cativantes e menos previsíveis, para além de gerar imagens fascinantes.

De certo modo, este é um volume mais simples do que os anteriores, sem elementos que perturbem a narrativa principal, mas continua bastante prolífero. A criatividade da autora conjuga-se com elementos históricos, mas de um modo que torna a história pouco credível. Ainda assim, as personagens apaixonantes e o estilo envolvente com os quais a autora já habituou os seus leitores, fazem deste um livro aprazível e cativante que lamentei terminar.

Há uma nova geração de personagens que se prepara para assumir o protagonismo, uma série de profecias que terão de ser cumpridas ou evitadas e muitas batalhas que decidirão o rumo dos povos da Terra. No entanto, confesso não ter conseguido definir expectativas concretas, devido à grande fluidez do enredo. Apenas antevejo momentos decisivos e sombrios narrados com a paixão característica de Sandra Carvalho.

O sexto volume, A Sacerdotisa dos Penhascos, já espera na estante. O sétimo e último será publicado, pelo que consta, em meados de 2011. A curiosidade é muita.

Os Três Reinos de Sandra Carvalho

Editorial Presença, 2008

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 16:53

Maio 14 2010

Depois de um livro de fantasia com quase mil páginas, procurei na minha estante um livro mais realista e mais pequeno. Peguei no Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel e, embora o livro seja menos volumoso e a história se passe no México do século XX, está polvilhado de elementos fantásticos.

O característico realismo mágico sul-americano associa-se, nesta obra, à culinária, fazendo deste um livro deveras peculiar. Em cada capítulo há uma nova receita, cada uma um novo mote da história, não fosse a confecção e a degustação dos alimentos marcadas por acontecimentos sobrenaturais que muitas vezes condicionam ou balizam as acções das personagens.

A principal é Tita, a mais nova de três irmãs. A tradição consagrou-a ao serviço da família, em especial da mãe, de quem deve cuidar na velhice. Como tal, não deve apaixonar-se e está proibida de se casar. Por isso, quando o seu amado Pedro lhe pede a mão em casamento, tudo se complica. As famílias chegam a um acordo, e Pedro acaba por casar com a irmã mais velha de Tita. Perante tão desesperante situação, a protagonista procura na cozinha um espaço de evasão, executando receitas ou tecendo feitiços, não fossem ambas as coisas tão semelhantes ou até, como nos mostra Tita, duas artes inseparáveis.

A narrativa é apresentada com modo simples e conciso, com tom animado e numa linguagem quase familiar. Tal permite uma eficaz proximidade com as personagens e os acontecimentos. As descrições não são extensas nem particularmente pormenorizadas, mas foi-me muito fácil visualizar o ambiente, em especial a cozinha, onde tanto se passa. Mesmo tendo em conta o género, os fenómenos paranormais conjugam-se muito bem com a acção e geram-se imagens de grande interesse.

No entanto, a descrição das receitas com detalhe enciclopédico quebra o ritmo da narrativa. Embora a culinária seja parte essencial da história, a não ser que se queira passar das palavras à gustação, estas passagens pareceram-me um tanto ou quanto sobre-exploradas.

Para além disso, a personagem principal e o enredo revelaram-se, em determinadas situações, previsíveis e há, em toda obra, algumas situações injustificadas, sobretudo no que toca às personagens secundárias e às poucas histórias paralelas existentes. É verdade que a novela é simples a apresenta elementos do fantástico, mas gostava de ter visto alguns aspectos mais desenvolvidos, sobretudo por curiosidade.

Ao longo da obra assistimos ao crescimento da jovem Tita e à sua luta contra tradições que merecem ser deixadas para trás. O final faz jus à narrativa e ao título, terminando de um modo tão romântico quanto apocalíptico. No fim de contas, a vida e o amor são mesmo assim, uma eterna luta em busca de um final merecido.

Um sucesso internacional de vendas que vale a pena conhecer! Eu já tenho Laura Esquivel e outros autores sul-americanos debaixo de olho…

Como Água para Chocolate de Laura Esquivel

Cristina Rodríguez, Edições ASA (edição Biblioteca Sábado, 2008)

 

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 20:57

Maio 13 2010

Antes de mais, não, não desapareci e este espaço ainda não morreu. Agradeço aos que aqui têm comentado e fica garantido: em breve terão resposta.

Quanto aos livros, começo com O Nome do Vento, a obra de estreia do norte-americano Patrick Rothfuss. A avaliar pelas opiniões que li, a versão portuguesa garantiu o sucesso alcançado pela versão original, ao tornar-se num dos livros do género mais comentados e recomendados dos últimos tempos. Feitas as contas, junto-me ao coro dos elogios.

A história dispensa apresentações: o protagonista, Kvothe, começa como uma criança curiosa e perspicaz num mundo de hábitos medievais, magia, monstros e malfeitores, antigas lendas e uma universidade especial. Apesar do universo cativante, é ele o elemento central desta história narrada, essencialmente, em primeira pessoa. Mais do que em outras obras, em O Nome do Vento tudo gira em torno do protagonista, das suas decisões e dos seus actos. Este é, na verdade, o relato da vida de um jovem inteligente, presunçoso, corajoso e determinado, em suma, de um herói.

Ainda assim, logo nas primeiras páginas do livro desapontei-me, pois algumas das expressões e metáforas utilizadas pelo autor pareceram-me mal conseguidas e pouco significantes. No entanto, embora as opções de estilo e sintaxe do autor nem sempre me tenham parecido as melhores, qualquer um desses pormenores foi suprimido pela qualidade e criatividade do enredo.

A criança que viaja pelo prolífero mundo de Patrick Rothfuss cresce e supera os obstáculos, tornando-se no jovem que luta diariamente para sobreviver e se afirmar numa sociedade marcada por desigualdades sociais. Mas, contrariamente a outros heróis do género, Kvothe é uma personagem incrivelmente solitária, mesmo não estando só, e é isso que o destaca e me impressionou. Para além disso, o autor não poupa o leitor e, sem chocar, consegue apresentar um universo negro e maléfico, ao mesmo tempo que suscita grande empatia com o protagonista. Existem outras personagens deveras cativantes mas pouco exploradas, uma lacuna que é preenchida pela complexidade do protagonista, no qual se centra toda a acção.

O modo detalhado e envolvente como a história é contada, associado às múltiplas peripécias nas quais Kvothe se vê envolvido, faz deste um livro original, criativo e, o mais importante, muito cativante. Contudo, não posso deixar de salientar uma certa morosidade na evolução dos acontecimentos. Embora a leitura não seja monótona ou aborrecida, há excertos que pouco ou nada acrescentam à história, e poderiam mesmo ser resumidos.

No fundo, este é um excelente início da trilogia e da carreira do autor. O facto de a história ser narrada em analepse (e na primeira pessoa, claro) confere um tom realista à obra, e permite, também, antever alguns acontecimentos dos próximos volumes. Mas as questões são muitas e a curiosidade imensa, pelo que não me resta outra solução a não ser esperar pelo próximo livro.

Não é história perfeita, mas é muito mais do que uma simples história sobre um jovem que quer aprender magia e lutar contra o mal. É o relato de um estranho estalajadeiro que se tornou lenda, um relato vivo e entusiasmante que se impõe como referência criativa.

 

 

O Nome do Vento de Patrick Rothfuss

Renato Carreira, Gailivro, 2009

 

Até Breve!

Publicado por Fábio J. às 23:17

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