Março 22 2007

E porque ainda se respira poesia, graças ao dia de ontem, deixo-vos aqui um poema que nunca me canso de ler. Pode não ser o com maior expressividade ou o mais erudito, mas é, para mim, imensamente belo.

Já não têm desculpa para não lerem um poema...

___________________________
 

Viver sempre também cansa.

 

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinzento, negro, quase-verde...

Mas nunca tem a cor inesperada.

 

O mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

 

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

 

Tudo é igual, mecânico e exacto.

 

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...

 

E obrigam-me a viver até à Morte!

 

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?

 

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima dum divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.

 

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

"Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela."

 

E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira, Militante

Publicado por Fábio J. às 14:00

Lindo!!
Nunca tinha lido o poema, apesar do título não me ser "desconhecido": O teatro "Viver todos os dias cansa". É um poema que foge um pouco à regra, na minha opinião, que faz coexistir a morte com a natureza, e com as coisas mundanas da vida e que por isso está dotado de muita beleza e realidade. A última parte, da morte está muito bonita!
Boa escolha! :)
cricri a 22 de Março de 2007 às 21:56

É um poema diferente. Como disse, talvez nem seja um óptimo exemplo da expressividade da poesia, mas é um bom exemplo da área de trabalho da poesia. E para além disso gosto do poema. Leio-o sempre com um sorriso nos lábios.
E já agora, também não me importava de morrer por 6 meses e depois ressuscitar. O poema descreve algo que adorava que fosse realidade: a vida eterna e com pausas...

Ainda bem que gostaste.
Fábio J. a 22 de Março de 2007 às 22:09

ola colegas de leituras
tambem gostei muito de ler esse excerto de poema
mas digam la que livros andam a ler??
finalmente de ferias...praticamente:)
boas leituras
ARYA a 23 de Março de 2007 às 11:41

Ainda bem que acharam o poema interessante.

Bem, eu ando a ler O Hobbit mas vou ler, nestes férias, Anjos e Demónios. Estou com tanto apetite de o ler que acho que não vou esperar por acabar o Hobbit. Talvez leia os dois ao mesmo tempo.

Férias! Finalmente! Sinto-me tão leve.
E tu que lês?

Boas férias!

ola
estou a ver que não sou a única a ler dois livros ao mesmo tempo
realmenta á alturas que achamos muito interessante o livro que estamos a ler mas ás vezes achamos outro tao interessante que vamos lendo os dois ao mesmo tempo.
ando a ler o voo do dragão
e cricri o que anda a ler??
boas leituras
ARYA a 23 de Março de 2007 às 19:22

Acabei o "Felizmente Há Luar!" (que até se lê em duas horas, mas eu dividi por dois dias) e devo recomeçar obrigatoriamente o Memorial do Convento. :(
Quando me vir livre deste livro até vou cantar: I'm free!! ;)
cricri a 26 de Março de 2007 às 14:58

não tenho tido tempo pa nada, nem sequer pa publicar. pois ontem foi o dia da poesia, que a mais bela forma de exprimir uma opiniao. O poema que publicaste ta fixe, não conhecia...
Boas Leituras!
leitor a 23 de Março de 2007 às 15:01

O melhor é que já estamos de férias e os bons velhos "tempos" regressaram.
Mesmo não lendo muita poesia acho-a muito bela e erudita. E este poema acho-o engraçado, diferente e interessante. Gosto.

Boas férias!
Fábio J. a 23 de Março de 2007 às 15:13

Associar o Dia Da Poesia ao começo da Primavera parece-me bem... afinal, renovação, nascimento, natureza... existe algo mais bonito e inspirador, até para os que sofrem?
Gostei mt d poema, pareceu-me uma óptima ideia... que bom seria recomeçar de novo de vez em quando...
phia_t a 23 de Março de 2007 às 15:46

Realmente a conjunção destas duas "comemorações" não podia ter mais sentido. E acho que poesia é isso mesmo: um poço de inspiração.

Ainda bem que gostaste do poema. Também está, de certo modo, relacionado com a natureza, Primavera. Acho que seria tão "deliciosos" poder começar de novo que admiro este poema.
Fábio J. a 23 de Março de 2007 às 21:47

E obrigam-me a viver até à Morte!..............foi o verso que eu mais gostei, nunca tinha visto a vida desta forma, mas acho que o poeta tem toda a razão, o céu é sempre igual, as árvores crescem sempre da mesma maneira........Quando estou num momento mais filosófico, como tu durante o teu último post , ponho-me a pensar porque razão é que eu me devo esforçar por ser feliz e fazer os outros felizes, por mais contente que eu esteja, por mais alegre que eu seja, um dia tudo vai acabar, e a minha felicidade, ou a felicidade de quem eu um dia fiz feliz, não me vai resguardar da morte.....................o grande objectivo da nossa vida não é sermos felizes, ou ajudarmos alguém a sê-lo, o nosso objectivo de vida, a razão pela qual existimos é para esperar que a morte venha , nos passe a mão pelos olhos até eles ficarem totalmente fechados, aperte o nosso coração até ele parar, e nos envolva num abraço tão apertado que faça com que deixemos de respirar............................... só estamos vivos para morrer.............

Adorei o poema, é mesmo muito bonito, quase tanto como o teu último post , eu não me canso de o elogiar!!!!!!!!!
mc a 23 de Março de 2007 às 17:12

Sem dúvida que este poema retrata uma outra perspectiva sobre a forma como interpretamos a natureza à nossa volta.
Também já pensei muitas vezes isso. Quem nunca pensou? Pensar que, viva eu da forma mais triste e miserável ou na mais alegre e luxuosa, e morrerei sempre, sem nunca ter a possibilidade de voltar, faça o que fizer, é revoltante e muito deprimente. Mas é a lei da vida... ou da morte.
E deixa-me dizer que quem está inspirada es tu, e não é pouco. Já pensaste em escrever uma utopia sobre a morte. Ajudarias muita gente a compreender a sua vida.

Mais uma vez obrigado pelas tuas palavras. Hoje já vou dormir contente.

até fiquei emocionada em, saber que eu inspiro alguém, tu e os teus posts é que me inspiram a escrever estas coisas. Principalmente os teus posts filosóficos, adoro-os!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu não sei se ajudaria muita gente a compreender a vida mas podes ter a certeza que nestes últimos meses os teus posts ajudaram-me a compreender muita coisa............... eu hoje também vou dormir mais feliz por causa das tuas palavras, e porque cheguei de uma viagem de 12 horas de autocarro. só para veres como adoro o teu blog, eu cheguei e estou super cansada, mas tive de vir matar saudades do teu blog e comentar os teus posts , mas se eu não escrever nada de jeito é do cansaço .............

mc a 1 de Abril de 2007 às 22:00

Sinto-me lisonjeado pelas tuas palavras e pelo teu esforço. Agradeço-te muito.
Vou tentar fazer mais posts ditos "filosóficos". No fundo são só analises mais adjectivadas, mas também eu gosto de os fazer.

E acredita que consegues inspirar.

Ate Breve!
Fábio J. a 2 de Abril de 2007 às 18:54

Olá... Estive a cuscar o teu blog e gostei muito do que vi... Visita também o meu blog pessoal em http://_deep_waters_.blogs.sapo.pt/... Deixa as tuas sugestões ou comentários... Partilha também as tuas opcções musicais...

Porque a música faz parte das nossas vidas...

Ainda bem que gostas-te.
E é lógico que visitarei o teu blog, ainda por mais sendo ele sobre música.

Podes contar com a visita...

Ate Breve!
Fábio J. a 25 de Março de 2007 às 22:38

Gostei muito do poema!!

com a coisa de ter de dar poesia na escola... acabei por criar um certo.."desgosto" e relação à poesia..

mas este poema agradou'me bastante :)


já que nao tens passado lá no meu blog digo'te, que também lá tenho um poema do qual gosto muito..

tenho saudades dos seus comentários!! xDD

eu estou quase a acabar o Eldest (não tenho tido muito tempo para ler) e depois vou ler o Codigo Da Vinci, vão emprestar'mo, visto que não tive opurtunidade de o comprar..

boas férias e boas leituras

beijinhOs***
Dee a 24 de Março de 2007 às 17:54

Tenho de pedir desculpas, a ti e a todos os outros "colegas da blogosfera", por ter andado desaparecido, mas sabes como é, as aulas não perdoam e mal tenho tendo para actualizar o meu blog. Mas mesmo assim tenho passado pelos vosso, não consigo é comentar sempre.
Mas agora estou de férias e poderei dar mais atenção a isto.
Por agora ainda ando a trabalhar numas coisa, mas depois estarei ainda mais livre para a "blogosfera".

Ainda bem que gostaste do poema. Eu até gosto de analisar poesia na escola: acho uma verdadeira aventura no meu de toda aquela subjectividade. E gosto de alguns poemas, como este. Irei procurar o teu.

Deixa-me dizer-te que fazes muito bem em ler o Eldeste e O Código da Vinci. São dois livro que gostei bastante. Esta semana também lerei, provavelmente, Anjos e Demónios, portanto também estarei com Dan Brown.

Até Breve e Boas Leituras!!!
Fábio J. a 25 de Março de 2007 às 22:44


Olá boa tarde
Passei por aqui e gostei deste post ! Fez-me lembrar uma época da minha vida de há 10 anos atrás...
Naquela altura só desejava que se pudesse morrer por duas horas!
Vivia uma paixão sem futuro, o trabalho stressava-me para além do razoável...
Passadas as crises que me levaram ao ponto de querer morrer (só que definitivamente- pois é "O" descanso eterno...) achei engraçado  (e devo dizer refrescante) ler neste poema uma frase que parte da mesma sensação...querer "morrer" ...mas só durante um tempo.
Será comum a todos  nós,  em certas fases da vida esta sensação... de querer parar tudo tão inexorávelmente como o faz a morte?
Parabéns pelo Blog!

Mara a 8 de Junho de 2010 às 18:50

Olá,

Acho que a ideia já nos ocorreu a muitos de nós. Poder parar, deixar que o mundo continue sem nós, só para nos voltarmos a cruzar mais tarde, num novo e inesperado reencontro. "morrer por um bocadinho", sem dúvida uma possibilidade mais humana do que alguns momentos tristes das nossas vidas.
E é nisto que a poesia nos faz pensar! :)

Obrigado pela visita!
Fábio J. a 13 de Junho de 2010 às 18:02


Acabei de ler o seu poema e não o podia achar mais oportuno e extraordinário.Infelizmente há 7 anos que vivo e sinto a vida tal qual a descreveu, não encontraria palavras melhores para descrever o meu estado de animo. Leio muito mas apesar de ser simples é profundo, nunca tinha lido algo que defina tão bem a vida e a morte. Parabéns 
ana cristina martins a 25 de Março de 2011 às 20:29

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