Julho 02 2007
Hoje debrucei-me sobre uma área que não está propriamente sob o meu domínio (será melhor dizer fora de controlo?): a pintura. Incrivelmente, não sabia o que fazer no início da tarde e lembrei-me que há muito queria voltar a pegar num pincel. E assim foi.
Depois de me instalar, com as tintas, pincéis e folhas, eis que me lembro: “Vou pintar o quê?”. Procurei então, nos recantos da minha mente, uma imagem a que quisesse dar corpo... e encontrei uma recente: as torres da Gente Bela a “nascerem” da sua floresta densa (Lágrimas do Sol e da Lua). Depois de duas horas desisti, cansado e insatisfeito, deixando metade do céu por pintar, numa paisagem que parecia ter sofrido a passagem dum ciclone. Enfim...
Quem foi, na verdade, mestre na arte de dar vida às palavras e o fez, durante a sua vida, duma forma singular e eterna, foi Sophia de Mello Breyner Andresen, filóloga, poeta, dramaturga, ensaísta, mestre do conto... Considerada “um dos maiores poetas portugueses contemporâneos”, Sophia morreu há precisamente 3 anos, com os seus 84. Uma data que não podia passar em branco, aqui no blog, sendo esta uma escritora que todos nós acompanhamos, pelo menos, na escola.
E seguindo agora o verdadeiro tema do post, proponho-me a debater o debate, a falar sobre o que se fala, ou melhor, do que pouco se fala. Nestes últimos tempos muito se tem dito sobre a iliteracia em Portugal, estando sempre por trás o apelo para uma maior leitura. Mas haverá assim tão pouca gente a ler, em Portugal? A resposta não é fácil... Nunca, em toda a nossa história, se leu tanto. Nunca, neste pais, se gerou tanto dinheiro com a literatura. E nunca, nos meios de comunicação social, se falou tanto e tão abertamente de literatura como hoje em dia. Onde reside, então, o problema?
Por incrível que pareça, existe um certo temor, por parte de muita gente, de falar sobre um livro ou literatura em geral. Isto acontece por razões naturais e óbvias: se eu não estou a par dum tema, seja ele qual for, não me vou sentir à vontade numa conversa sobre ele. Contudo, mais do que inocente desconhecimento existe também uma ignorância cega que julga e maltrata a literatura, e penso ser esta ignorância o mal a combater, de forma a tornar possível a total liberdade da literatura, passando esta a ser encarada como qualquer outro entretenimento ou arte, encarada como realmente é.
E será ela aborrecida? Bem, cada livro é um livro, e tal como obras arrebatadoras e repletas de acção também existem obras enfadonhas. Mas penso que o interesse no “falar de literatura” se deve mais ao contexto, já que quanto mais dentro do assunto estiver o individuo, mais fluentemente poderá partilhar opiniões e assim tornar uma conversa literária interessante.
Se isto acontecer, haverá, então, uma certa trivialidade em conversas deste género, já que não existirá qualquer tipo de “tabu” entre os intervenientes e estes tratarão a literatura como uma parte normal da sua vida.
Da trivialidade pode surgir um interesse neste tipo de conversas. E quão bem sabe partilhar opiniões, debater as dúvidas e as apostas sobre determinada personagem, certo acontecimento... pode tornar-te viciante, até! A ânsia de descobrir mais e mais torna este mundo fantástico e amado por tanto.
Não estou a querer desenvolver nenhuma teoria da conspiração, em que muitos estão contra a literatura, longe disso! Defendo apenas que a literatura deve perder os adjectivos “complicada” e “maçuda”, tendo para isso de haver uma maior consciencialização sobre o que realmente esta é.
Bem, este post foi um pouco para o discursivo, peço desculpa... Uma das funções deste blog é tentar tornar a literatura algo simples e interessante. Espero que, de alguma forma, ajude.
____________________________________________
Falar de livros/literatura é-me:
 
4.7% aborrecido
8.23% trivial
78.82% interessante
8.23% raro

 

Total: 85 respostas

 

Boas semana e Boas conversas!!!

Publicado por Fábio J. às 22:58

É complicado definir porque não se fala mais de literatura em Portugal. Tem-se visto um aumento considerável do número de pessoas que lê e julgo que para tal tem contribuído o facto de serem feitos cada vez mais filmes baseados em livros, o fenómeno de best-sellers como Harry Potter e os livros de Dan Brown bem como o facto de aparecer um novo estilo de livros designados como literatura light, aos quais estão associados os livros de Margarida Rebelo Pinto. Aos poucos, vejo que a literatura no nosso país se difunde e falar sobre ela como algo estimulante e agradável será o próximo passo (espero que não haja regressão!).
Sophia de Mello Breyner Andresen... Tive o grande prazer de conhecer esta senhora tanto pelos livros que escreveu como pessoalmente numa visita que ela fez à minha escola (quando estava no 6º ano). Recordo o Cavaleiro da Dinamarca e a Fada Oriana... Foram dos primeiros contos que li num livro com poucas figuras:P Depois tive de revê-los, pois faziam parte do programa de Português no ensino básico.
Pink Robot a 3 de Julho de 2007 às 09:11

Concordo contigo. É devido a muitas dessas obras (algumas vezes despresadas pelos criticos e eruditos) que a leitura se torna um habito cada vez mais frequente entre a população em geral, e eu que o diga! Se não fosse o Harry Potter e outros do género muito provavelmente este blog não existiria.
Também acho que, lentamente, a ideia sobre a literatura vai mudando. Havemos de chegar a um bom porto.

De Sophia lembro-me de ler vários excertos, contos e poemas, na escola, entre eles O Cavaleiro da Dinamarca que gostei imenso. Também li a Fada Oriana, mas fora da escola. Gosto bastante da sua poesia, também.

Até Breve!
Fábio J. a 3 de Julho de 2007 às 22:39

Realmente, Portugal em questões de gosto pela literatura é de facto um bocado miserável. Quer dizer as pessoas acham que um conjunto de páginas cheio de letras é aborrecido! Mas estar secalhar em frente à televisão, já não é. Ler é bastante importante para a mente. A maioria dos adolescentes, que conhecem os filmes baseados nos livros, preferem ver o filme, do que propriamente ler o livro. O livro é que traz toda a informação, todos os pormenores, e cada vez que se acompanha uma saga de livros, aí sim é que se percebe a história. Acho que já estava na altura de fazer uma campanha a favor da literatura! Leiam, ler é muito bom e divertido!
Nox a 3 de Julho de 2007 às 13:32

Agora que pões a situação nesse plano acho que tens razão... existem outras actividades que têm tudo para se revelarem muito mais aborrecidas e merecedoras de críticas do que a literatura, e ninguém as critica.
Adoro ver as adaptações cinematográficas dos livros, mas sem dúvida são estes últimos os que nos fornecem todos os pormenores.
Tem razão, ler pode ser muito divertido e é sempre muito bom.

Até Breve!
Fábio J. a 3 de Julho de 2007 às 22:45

Curiosamente, ainda ontem estive a falar com o meu pai sobre o analfabetismo em Portugal e, consequentemente, iliteracia. O que também não faz com que os que saibam ler, só por isso comprem livros com esse intuito, ou requisitem, ou peçam emprestado...ou tantos modos de ler uma história hoje em dia e mesmo assim continua a não se cultivar a leitura. Bem, sempre há o Ler+, se der em alguma coisa...
Gostaria de ver o dia em que se pudessem reunir pessoas e ter como tema uma história. E como disseste, falar das personagens, da escrita, do enredo. Lá acontece esporadicamente com Harry Potter fazer "premonições", dar palpites do que irá acontecer. Sempre é um começo..!
Já os resultados da votação são positivos! Tomara que fosse com todos e cada vez que se começasse a falar de um livro não nos olhassem de alto a baixo género: "E tu lês coisas dessas?" Acho que na minha turma excluindo duas pessoas que serão leitores assíduos (incluindo eu) e os livros do contrato de leitura, ainda assim escolhidos por nós, o número de livros lido por ano não deve ultrapassar as 5 unidades - se for isto é muito bom. E nestas 5 unidades ou são livros de terror ou drogas e coisas do género. Bem, sempre é ler... :S
Já me alonguei de mais..!

Força com as actividades artísticas! Nada de desistir! E que saudades dos dias em que pensava "que vou hoje fazer?"...

Ate à próxima!
cricri a 3 de Julho de 2007 às 22:39

Era óptimo ver a literatura ser tratada com essa naturalidade. Toda a literatura deve ser respeitada. Eu tento respeitar toda, mesmo não gostando mesmo nada de alguma. Mas o fundamental é ler e gostos não se discutem... eu também não gosto que critiquem o meu duma forma cega, como acontece com os livros de fantasia por parte de muita gente, por exemplo.
Ler 5 livros por ano já é muito bom! Muitos dos meus colegas nem o do "contrato" leram...

Tem de se começar por algum lado e o mais importante é combater a iliteracia.

Não sei se as minhas actividades artísticas me levarão a algum lado! A pintura, pelo menos, acho que não é para mim... mas é uma actividade engraçada.
Acredita que é mesmo bom poder dizer essa frase: "o que vou hoje fazer?".

Cya

Não! Os 5 livros por ano era referindo-me à turma toda! Eles, no seu conjunto leem 5 livros por ano... LOL Claro que isto nem um por pessoa dá, mas se alguns tocarem num livro de 5 em 5 anos, é bom! E não estou a exagerar.
Ainda há muita crítica relativamente à fantasia. Eu sinto isso na pele. Mas quem lê sou em e quem perde são os outros.

Eu gosto de pintura e de desenho. Quando já estou farta de estudar dou por mim a desenhar qualquer coisa no canto das folhas, seja lá o que for. Desenvolve a criatividade! :)
Se acredito! Eu hoje penso: "Ainda tenho isto, isto, isto e aquilo para estudar". Só mais duas semaninhas..!

Estou a ver que a realidade não muda muito nas diferentes escolas... Por momentos, até pensei que eramos todos da mesma turma. :P Curioso como se lê pouco e é tão difícil encontrar alguém para partilhar algo de que gostamos tanto. Mas noto alguma evolução, devido aos factores que enunciei num comentário anterior. Sempre temos este blog para partilhar as nossas experiências literárias. :)

Na minha turma também é a mesma situação. Só 3 pessoas é que lêem regularmente. Só consigo realmente ter uma conversa sobre literatura com um pessoa. A maioria raramente lê. só as obras de leitura que se estudam na escola (e alguns nem isso lêem). Mas pelo menos respeitam-me quando digo que leio muito e que gosto de livros de fantasia. Penso que as pessoas que dizem não gostar de ler nunca experimentaram realmente ler um livro. Ou então começam com os mais aborrecidos e não experimentam outros. Tenho um primo que não gostava de ler. Achava tal facto aborrecido e até criticava as pessoas que liam. Consegui convencê-lo um a ler o 3º harry potter . Passado uma semana já me estava a pedir o outro... e depois o outro. Depois disso leu Eragon e livros do Dan Brown . As pessoas que dizem não gostar de ler, se tomassem a iniciativa de ler um livro de fácil leitura e cativante, acho que até o gostavam de fazer.
pp a 4 de Julho de 2007 às 14:38

Como já disse, eu consigo falar de literatura com alguns colegas, o que é óptimo. Ler fantasia também é, para alguns dos meus colegas, algo de outro mundo, mas sinceramente não me incomoda: cada um pensa o que quiser.

Tens razão quando dizes que por vezes o problema é o começo. Se um adolescente começar por ler aqueles clássicos menos bons que se dão na escola muito provavelmente irá acha-los chatos e não continuará a ler. Também se dão boas obras na escola, mas nem sempre...
Essa história do teu primo é bastante interessante, e presumo que aconteça frequentemente. Até podem criticar estas obras mas só o facto de porem tanta gente a ler já faz delas algo incrivel.

Até Breve!
Fábio J. a 5 de Julho de 2007 às 20:46

Realmente não tinha percebido quem lia os cinco livros... não li bem. Neste caso, retiro o que disse: já não é assim tão bom!
Na minha turma, a ler frequentemente tinha uns 5 e mais aqueles que de vez em quando pegam num livro torna possivel que por vezes seja possivel ter uma verdadeira conversa sobre algum autor ou obra, o que é bastante bom. Mas existe a tal critica, e como tal não é assunto frequente.

Já no final do ano descobri o quão engraçado era desenhar nas folhas das matérias enquanto a professora de filosofia falava. Um mau hábito que tentarei não repetir. LOL

Cya
Fábio J. a 5 de Julho de 2007 às 20:34

Literatura: uma palavra desconhecida para tantas pessoas. Mas para outras, conhecida, mas de longe. Para outras é uma palavra bastante importante. Existem 3 tipos de leitores (na minha opinião, até pode haver mais): os que lêem por obrigação, os que lêem por ler, só para ter alguma coisa para fazer e os que lêem por gosto. A maioria das pessoas devia ser do 3º género. Eu pessoalmente, acho que ler é bastante importante. Comecei a ler o livro "A Lua de Joana", uma obra fascinante e comovente, por um lado. Enquanto não acabei, não descansei. Sou daquelas que gosta de ler, e se é interessante, não descanso enquanto não acabar. A literatura só tem uma palavra que a defina: INTERESSANTE. Portanto é altura de fazer um apelo: LEIAM POR PRAZER, NÃO LEIAM POR LER!
Joana a 6 de Julho de 2007 às 21:32

Com a divisão em tipos de leitores.
Mas, no fundo, os que lêem por obrigação nem podem dizer que lêem. O que fazem pouco mais é do que visualizar as letras, pois, se não se entrar realmente na história nem se encontrar o seu interesse aquilo será uma tarefa que não merece ser denominada de leitura.

Apesar de defender que existe literatura aborrecida e má (já que hoje em dia qualquer um escreve um livro - resta é saber se isso é literatura ou não) concordo que a literatura deve ser encarada como algo interessante e muito importante.
E, realmente, só vale apenas ler se for por prazer.

Até Breve!
Fábio J. a 6 de Julho de 2007 às 22:52

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