Novembro 03 2007
A propósito da questão que este mês coloquei aqui no blog, achei por bem dar uma vista de olhos pelos tops de vendas de algumas livrarias virtuais portuguesas. Visitei o site da Bertrand, Bulhosa, Fnac e Webboom. Em cada uma delas é possível encontrar uma lista com os dez livros mais vendidos da semana. Os resultados variam de acordo com o vendedor, mas o que quero salientar é a nacionalidade dos autores: na Bertrand e na Bulhosa quatro dos dez livros da lista são assinados por autores portugueses, sendo que em cada uma das outras duas listas apenas constam três autores nacionais.
Estes dados não me chocam, na verdade até os acho normais. Não é novidade para ninguém que o mercado editorial português é bastante dependente de obras estrangeiras e que entre estas estão algumas daquelas que serão best-seller no nosso país, arrebatando fãs e merecendo a atenção da crítica. Mas serão estes dados o reflexo duma preferência natural e espontânea, por pura casualidade, ou existirá na sociedade lusa uma tendência racional para preferir autores estrangeiros?
Se considerarmos os visitantes deste blog uma amostra fidedigna da nossa sociedade, então não há margem para dúvidas: os leitores portugueses preferem ler autores oriundos de outros países.
Não me é possível saber, e por isso divulgar, as razões das respostas dadas, mas independentemente delas os dados parecem-me realmente merecedores de atenção. Perto de um quarto dos votantes afirmam interessarem-se mais por autores estrangeiros duma forma muito convicta. Para estes que indicam a preferência como uma obrigatoriedade, talvez apenas exista criatividade, qualidade e dinâmica nas obras estrangeiras. Ou isso, ou não existe qualquer tipo de confiança do que se faz em Portugal, havendo até, quiçá, um preconceito.
Há, no entanto, aqueles que diria terem esta preferência por casualidade, ou então porque, no nosso mercado tão virado para o que vem de fora, o destaque dado aos autores estrangeiros ensombra os autores nacionais e as suas obras. Seja como for, não deixa de ser pouco animador verificar que o interesse de muitos leitores não passa pelas obras dos seus compatriotas.
Para além disto, daqueles que deram uma resposta negativa à questão, não é possível saber quais os que, apesar dos interesses em abstracto, realmente dão mais importância aos autores nacionais e lêem as suas obras.
Em suma, diria que me parece necessário mudar mentalidades. Sou acérrimo defensor de que opiniões não se discutem mas creio que não devemos ser extremistas e nos confinarmos a ideias demasiado sólidas. Sem dúvida que, à partida, para ser editada em Portugal uma obra tem de ter sucesso no seu país e/ou internacionalmente, mas lá porque as portuguesas não passam por essa selecção não há razão para afirmar que nelas não existe qualidade e interesse. Há livros nacionais maus, sem dúvida que sim, mas não os haverão também entre aqueles que nos chegam de outros países?
Fico à espera de opiniões.
_________________________________

Interesso-me mais por escritores estrangeiros.

 

26.31% Obrigatoriamente.
39.47% No fundo, sim.
34.21% Não.

 

Total: 76 respostas
Publicado por Fábio J. às 22:53
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Não me interesso mais por autores internacionais do que por autores portugueses. Pelo contrário, desde muito novinha (quando ainda lia os livros da Ana Maria Magalhãe, Isabel Alçada e até da Alice Vieira), os livros dos autores nacionais estiveram sempre no top das minhas preferências. A forma como se exprimem e o facto de estar a ler algo escrito directamente pelo autor (em vez de uma tradução) são apenas alguns dos factores que influenciam esta minha preferência (além de algum orgulho nacional também pelas fantásticas obras que já li:)). Isto não significa que leia mais escritores portugueses do que estrangeiros. Infelizmente, a minha realidade não é essa. E os motivos são vários: dificuldade em arranjar livros de autores nacionais menos conhecidos, menos polémicos e da minha preferência (onde arranjaste o Goor e o Igorg... tenho procurado nas livrarias, mas não encontro:(); não consigo resistir à curiosidade de ler livros com cada vez maior publicidade (o caso do Crepusculo... estou mesmo curiosa); a falta de informação e também muita preguiça em procurá-la; entre tantos outros que podia continuar a enunciar...
Entre os motivos que me levam a ler mais autores estrangeiros do que nacionais ou preferir os autores nacionais face aos estrangeiros (parece contraditório, mas não o é, basta ver os motivos que já referi), excluo totalmente o factor qualidade. Encontra-se um pouco de tudo tanto nos nossos escritores como nos que vêm de fora. Independentemente de quem escreve, o que interessa é que se continue a ler o que se prefere... mas dar uma oportunidade ao que existe no nosso mercado feito em território nacional pode ajudar a desenvolvê-lo ainda mais. Pensem nisso...
Pink Robot a 4 de Novembro de 2007 às 18:14

Sabias palavras!
A minha realidade, no que toca aos números, também é um pouco assim: provavelmente leio mais estrangeiros do que nacionais. Mas se me perguntarem em qual destas "classes" encontro as escritas mais bem construídas, mais emotivas e, no fundo, mais credíveis e próximas de mim, não duvido que na dos autores portugueses. Adoro Le Guin, por exemplo, as suas metáforas, a sua adjectivação, a forma como cria personagens e reflecte sentimentos mas, apensar disto, não esqueço que leio as suas obras traduzidas. Se há um autor que gostaria de ler em inglês é ela. Só quando o autor nos escreve "directamente" sentimos o livro por inteiro, independentemente da qualidade do enredo. E se a linguagem for a que usamos no dia a dia, o português, então logo ai o livro ganha uns pontos. Ler em português é diferente, é especial.
Mas é como dizes, por vezes os nossos autores são pouco publicitados, quiçá estão até mais distantes do que os estrangeiros. No entanto, acredito que se o publico português se virar um pouco mais para o que tem cá possa encontrar obras realmente interessantes. Concordo que não deve ser a nacionalidade a ditar os interesses e opiniões, apenas a qualidade da obra, mas por isso mesmo acho que os leitores portugueses, assim como as editoras, devem prestas um pouco mais de atenção no que há por aqui.
Quanto aos dois livros que referes, eu tenho de agradecer aos autores a leitura dos mesmos, mas ambos estão disponíveis na maioria das livrarias virtuais, e quando não estão é possível "requisitar". É pena é não se encontrarem nas livrarias convencionais.
Igorj: www.webboom.pt/ficha.asp?ID=155261
Goor I: www.livrosnet.com/?op=artigo&pid=&lid=c17e8738e3ff4451eff7d670d9ab9c63

Até Breve e Boas leituras, independentemente da nacionalidade.
Fábio J. a 4 de Novembro de 2007 às 21:55

Nunca pensei muito nos autores que leio nesses termos, ou seja, se são portugueses ou não. Agora que penso nisso, vejo que a minha biblioteca é maioritariamente estrangeira. Acho que é reflexo do que é editado por cá (mais destaque aos autores estrangeiros), mas depois penso melhor e percebo que acaba por ser aí na maior parte das vertentes culturais. Seja na música, no cinema ou noutro campo qualquer, parece que tudo o que vem de fora tem sempre mais qualidade. Não pode ser verdade, mas acho que as mentalidades explicam muita coisa.
No que aos livros diz respeito, falta uma maior aposta nos autores portugueses, não só a nível de editarem os livros, mas depois a nível de marketing, porque se as pessoas não souberem que os livros foram lançados não os compram. Apesar disso, acho que a questão é mais profunda que isso, e atravessa toda a nossa sociedade e em várias quadrantes, não só na literatura.
Boa reflexão, parabéns.
canochinha a 4 de Novembro de 2007 às 22:45

Já pensei por diversas vezes nesa questão, dado que me interesso mais por autores estrangeiros mas, não tem a ver com a questão da nacionalidade, não me considero "Anti-nacional?" apenas tenho preferência por um tipo de escrita que foge ao que tem sido publicado de autores postugueses.

O meu género de eleição por exemplo, que á a ficção especulativa, é um géneno que não é preferencial dos autores portugueses, estes escasseiam, tanto em quantidade como em qualidade. E no que diz respeito às editoras, a tendência tem sido, apenas a aposta nas traduções de obras deste género que fizeram sucesso no estrangeiro como é o caso de O Senhor dos Anéis e Harry Potter, entre outros.
Alexandra a 5 de Novembro de 2007 às 18:20

Realmente existem géneros e temáticas literárias pouco exploradas por escritores nacionais, mas isso não significa que não haja quem os escreva. O problema é que os leitores não são obrigados a andar à procura deles, embora um pouco de "interesse" ajudava, até porque existem alguns que não são assim tão esquecidos...

As editoras apostam mais em obras estrangeiras, mas prefiro acreditar que isso também se deve à quantidade e à facilidade. É mais fácil publicar um livro já dum escritor com provas dadas no estrangeiro do que andar à procura de nacionais que ninguém conhece. Mas que há qualidade nãos obras portuguesas lá isso há. Talvez lhe falte, à "literatura portuguesa contemporânea", uma alma mais forte, algo mais sólido, contudo acredito que isto se está a construir.
Fábio J. a 5 de Novembro de 2007 às 22:31

Concordo plenamente.
Para o bem e para o mal, a nossa sociedade é tendencialmente um consumidor de obras culturais estrangeiras. Talvez o conceito quantidade também tinha muita importância aqui, mas não vou por ai.
Sem dúvida que esta problemática parte do intelecto colectivo português e que um pouco mais de marketing nas "nossas" obras ajudaria, mas aí cabe às editoras e livrarias apostarem no nacional. E, claro, que os leitores sintam um pouco mais de, no mínimo, curiosidade pelo que se faz cá.
Fábio J. a 5 de Novembro de 2007 às 22:21

Olá, não sei bem como aqui pousei durante uns largos minutos.
Parabéns pelo blog.
O tema é complexo e sensível.
Vejamos. Concordo com todos os comentários anteriores. Todos têm razão no seu raciocínio.
Penso que existe qualidade literária tanto em Portugal, como no estrangeiro. Mas, como português que sou, normalmente o que é de “fora” é melhor.
Já diz o ditado popular “a galinha da minha vizinha é melhor que a minha”…
Obviamente que existe muito mais variedade de escolha com autores estrangeiro, pois como é sabido, têm mais e melhores apoios editoriais.
“… Falta uma maior aposta nos autores portugueses, não só a nível de editarem os livros, mas depois a nível de marketing, porque se as pessoas não souberem que os livros foram lançados não os compram. Apesar disso, acho que a questão é mais profunda que isso, e atravessa toda a nossa sociedade e em várias quadrantes, não só na literatura.”
Não poderia estar mais de acordo com esta afirmação.
Eu falo com conhecimento de causa. Sou escritor, não por profissão, mas como hobby. Não dá para imaginar o que é necessário para “romper” as barreiras das editoras.
Após contactos com várias, a resposta é sempre a mesma. “Gostamos, mas não está dentro do plano editorial para o ano em curso.”
Apenas, vão conseguindo editar, os já conhecidos, com um bom nome na praça, os que aparecem na TVI a dar entrevistas e se polémicas melhor, ou contar as aventuras de “alcofa”.
Perante esta situação, apenas encontrei uma editora que quis editar, mas a edição teve de ser paga pelo autor, ou seja por mim.
E depois? Bem depois… fica-se ao abandono… nem publicidade… o livro colocado numa livraria e num site on-line.
É esta a aposta nos “novos” escritores”.

Obrigado por me permitir este desabafo.

João Cordeiro a 15 de Novembro de 2007 às 14:41

Olá, desde já bem-vindo.
Apesar das várias razões já aqui apontadas, por vezes é-me difícil compreender esta "preferência" , esta opção, voluntária ou não, mas a verdade é que até eu acabo por ler e prestar uma maior atenção aos autores estrangeiros, e se alarmos a problemática a outras área culturais as diferenças não são muitas.
Nos últimos tempos tenho tomado conhecimento de vários casos como o relatado: autores nacionais que se vêem "gregos" para publicar as suas obras, e quando o conseguem fazer é à custa de muito esforço e frequentemente com poucos resultados. Sem dúvida não é uma constatação animadora, e não podia estar mais de acordo com aquilo que faz de muitos ("grandes") autores nacionais o que são.

Até Breve!
Fábio J. a 16 de Novembro de 2007 às 22:34

Não fico nada admirada com o resultado do "teste".
Não me revejo nele mas para muitos a ideia que têm dos autores portugueses é que são demasiado descritivos, ainda se encontram muito "agarrados" aos clássicos e não descobriram os novos e bons escritores.
Ana a 15 de Novembro de 2007 às 18:11

Por um lado esse é um dos factores que mais contribui para este resultado. Na escola damos os clássicos, muitas vezes apenas porque somos obrigados, e como tal acabamos por generalizar e atribuir uma conotação negativa à literatura e aos escritores portugueses.
Mas acredito que isto também se deva à falta de marketing e, em alguns caso falta de criatividade, dos livros portugueses. O que não compreendo muito bem e a grande intolerância de muita gente, mas enfim.

Até Breve!
Fábio J. a 16 de Novembro de 2007 às 22:53

Teu blog é bastante interessante. Gostei dos debates propostos.

Eu o convido a conhecer o blog de críticas literárias em forma de literatura: CINCO ESPINHOS.

Toda semana, também, garimpamos a internet à procura do texto que valha a pena de um autor "desconhecido".

Ajude-nos a fomentar o debate sobre literatura "contemporânea".

Ah... braços!
http://cincoespinhos.blogspot.com
Priscila Lopes a 18 de Novembro de 2007 às 17:31

Obrigado pelas palavras.
Visitei o blog e não sei se percebi muito bem o conceito. De qualquer forma ficarei atento.

Abraços...
Fábio J. a 24 de Novembro de 2007 às 18:26

Discordo quando se diz que os portugueses não gostam de ler o que é nacional.
Autores como Jose Rodrigues dos Santos, Luis Miguel Rocha, José Viegas têm sucesso na literatura (o segundo mais a nivel internacional) devido a questoes de marketing.
Nós vemos diariamente nas proprias bibliotecas o fraco esforço por parte das editoras em promover o que é nacional. O que promovem ou é estrangeiro ou, se é nacional, são apenas de 2 ou 3 autores. Não se ve nada de novo...
Mas, pode ser que este próximo ano traga surpresas... ;)
Abraços
Rui M Borges a 22 de Novembro de 2007 às 11:38

O problema não é os portugueses não gostarem de ler o que é nacional, mas sim de, pelos vistos, preferirem o que vem de fora.
Os autores citados são bons exemplo de escritores com muitos fãs no nosso país, que marcam uma boa posição, mas o que são três, quatro ou dez entre as centenas de livros estrangeiros lidos em Portugal?
Talvez se devesse mudar mentalidades.
Quanto ao futuro, sinceramente não acredito numa grande mudança brevemente, mas o tempo o dirá!

Até Breve!
Fábio J. a 24 de Novembro de 2007 às 18:43

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