Janeiro 05 2008
No início dum novo ano pedem-se desejos, fazem-se promessas, reforçam-se convicções. Mas apesar de todos estes conselhos ao destino, a maioria das palavras ditas não chega a passar disso, e os acontecimentos, os actos e as mudanças são adiadas, mais uma vez, para o início do próximo ano. Uma das mudanças que se iriam dar com o início deste ano, ao bater das doze badaladas, seria a da grafia do Português. Nesta altura, o nosso abecedário já teria 26 letras e já não seria incorrecto escrever que “neste úmido janeiro, a não ratificação do Acordo Ortográfico foi um ótimo incentivo a ações de manifestação contra este”.
A pretensão de tornar a grafia da Língua Portuguesa una era já do conhecimento público (mesmo que não de todo o “público), mas quando, a 2 de Novembro do passado ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros português anunciou que Portugal aprovaria o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa até ao final desse ano, tornando-o uma realidade, foi como se um cronómetro omnipresente inquietasse muitos portugueses. A ministra da Cultura veio, no mesmo mês, anunciar que pediria um prazo de dez anos para a entrada em vigor do Acordo, prevendo-se, durante este período, a coexistência das duas grafias.
Muitos aplaudiram, mas muitos protestaram. Cedo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) contestaram a forma como o anúncio foi feito, de forma informal e precipitada. Outros mostraram o seu descontentamento já que, para além da injustificada e grosseira mudança, o Acordo faria com que todos os livros, sejam eles de ficção, técnicos, escolares ou dicionários, passariam a apresentar uma ortografia incorrecta, inutilizando-os.
A verdade é que o referido documento não assegura a promovida “unidade essencial” da Língua Portuguesa. E, na realidade, esta unidade é assim tão essencial? Sem melodrama, por favor: não é este acordo que aproximará os países de língua oficial Portuguesa. E a “desculpa” económica é de longe a mais ridícula. Poupar-se-á nas adaptações de documentos, livros, videojogos e software, é uma realidade, mas é este valor suficiente para custear as alterações necessárias e a entrada em vigor do documento, para além de obrigar os portugueses a escrever de forma ilógica e diferente daquela que aprenderam? Nem de longe. A única justificação, implícita e, contudo, lógica, é a conquista do economicamente crescente mercado africano. E enquanto os portugueses estarão ainda a tentar perceber o que muda e porquê, já as editoras brasileiras estarão a editar em África, felizes e contentes.
O descontentamento não se deve a medo duma suposta “abrasileiração”, nem a pura teimosia: deve-se à defesa de direitos que os portugueses têm sobre a língua que falam e escrevem.
A imprensa pouca importância deu a esta problemática, e sempre que o fez tratou-a como se fosse algo quotidiano, demasiado desinteressante para ser comentado. Talvez por isso, a pergunta que aqui coloquei no passado mês demonstre que ainda sejam muitos aqueles que desconhecem em que consiste o Acordo Ortográfico, acordo que poderia, inclusive, já ter sido aprovado e entrado em vigor. Quiçá os debates, os comentários, as opiniões e os directos sobre a simples e conhecida Lei Anti-tabaco sejam demasiado importantes para cederem tempo a uma questão sobre a nossa identidade linguística.
Mas apesar de qualquer tipo de protesto, a entrada em vigor deste acordo é (certamente) inevitável. O Governo adiou a aprovação da ratificação para este ano, sem precisar a data, mas que poderá fazer: voltar atrás com o já foi assinado e decidido? Mesmo que os actuais ministros compreendam as opiniões daqueles que não concordam com o acordo, seria deselegante e politicamente incorrecto ignorar o documento. E entre isto e tentar procurar novas opções, como anunciar que, na realidade, o documento não corresponde aos interesses dos portugueses, parece-me que acabarão por se decidir pela primeira possibilidade.
Ainda assim, não me cansarei de expressar o meu desagrado face ao Acordo Ortográfico que, a meu ver, trará mais desvantagens do que vantagens e que nos fará escrever de forma ilógica e incorrecta.
____________________________
Sabe em que consiste o Acordo Ortográfico?
 
44.32% Sim
21.62% Já ouvi falar
34.05% Não

 

Total: 185 respostas
Estejamos atentos.
Publicado por Fábio J. às 20:25

confesso que sou uma daquelas pessoas que votou no já ouvi falar, mas para ser franco não sabia muito bem do que tratava o acordo. Achei o post muito esclarecedor.

Então andas a ler o setimo livros, estou ansioso por ouvir a tua opinião do livro.
Boas leituas
leitor a 5 de Janeiro de 2008 às 20:51

Para além de achar o Acordo, tal como disse, algo desnecessário e, pior, ilógico e mau, penso que um dos maiores problemas é mesmo a falta de informação, até porque muita gente pura e simplesmente não conhece nem o nome, quanto mais o conteúdo. Pior: tanto ou quanto sei, não existe nenhum documento assinado que deixe claro quais as palavras que realmente mudam e as que ficam iguais - há muita estupidez no meio deste acordo.

Sim, estou a ler o 7º Harry Potter. Já não me falta muito para acabar, mas também estou a "poupa-lo", lendo-o com calma, pouco de cada vez. É o último e há que aproveitar.
Se queres que te diga, li partes que achei um pouco más, talvez desnecessárias ou forçadas, mas preciso que acabar para avaliar!

Boas Leituras!

A história da ortografia do Português deve ser das mais confusas das línguas europeias. E aí não vejo riqueza: vejo confusão, indecisão e nacionalismo.

São horas e horas, as que se perdem a produzir versões de Machado de Assis ou Eça de Queirós para o Português Europeu ou do Brasil.

São horas e horas, as que se passam a inserir António e Antônio nas bases de dados.

Sou absolutamente a favor de uma uniformização total da forma como se escreve.

Lamento apenas que este acordo ortográfico o faça de uma forma tão pouco coerente e que deixe de parte milhares de palavras.

Lamento também que a iniciativa não tenha partido de Portugal e que este se coloque na cauda do acordo e não à sua frente.

Os livros electrónicos, a cuja produção me dedico no Project Gutenberg (www.gutenberg.org/pt), continuarão a ser electrónicos e eletrônicos.

E eu continuarei a ter mau génio ou mau gênio consoante os dias.

Este fenómeno (fenômeno) ortográfico não se verifica com esta intensidade em nenhuma outra língua europeia de expansão universal.

Concordo que há um trabalho que tem de ser feito sempre que se produz algum documento dirigido aos cidadãos dos dois lados do Atlântico mas, sinceramente, acho que vivemos muito bem com isso. Certamente é "chato" para quem trabalha em algo em que sinta acentuadamente esta diferença ortográfica, no entanto, diria que esta "chatice" não serve de justificação a uma mudança.
Se a língua está a divergir, para quê unificar a sua escrita? Para facilitar a "compreensão" entre os povos? A mim não me incomoda ler "eletrônico" no lugar de "electrónico", "ator" em vez de "actor", mas incomoda-me, e muito, modificar a maneira como escrevo por o que considero ser pura carolice. Não é amor ao comodismo: é repulsa a algo que acho maioritariamente ilógico.

Mas é bom ver o outra lado da questão, o lado daqueles que realmente enfrentam as dificuldades causadas por estas diferenças. De qualquer modo, acredito que a aprovação do tratado, com todas as suas ratificações, está para breve, e aí sim, escreveremos todos da mesma maneira.

Até breve e bom trabalho!
Fábio J. a 24 de Janeiro de 2008 às 23:24

Eu sou contra o acordo ortográfico, mas as mudanças não são assim muitas. Além disso, 'úmido' vai continuar a estar mal escrito, pois será na mesma 'húmido', como todas as palavras iniciadas com h.

Aqui está o que mudará:
1) CONSOANTES MUDAS
É uma das medidas mais contestadas pelos opositores do Acordo. Com as novas regras, em vez de ‘tecto’, ‘correcto’ ou ‘baptismo’, vai passar-se a escrever ‘teto’, ‘correto’ ou ‘batismo’. De fora da mudança vão ficar os nomes próprios (como ‘Baptista?) e as palavras com ‘h’ mudo. Ou seja, ‘haver’, ‘homem’ e ‘hotel’ continuam a escrever-se da mesma forma. Outra excepção é a palavra ‘facto’. Uma vez que o ‘c’ se lê, mantém-se a mesma grafia.
2) ACENTO CIRCUNFLEXO
O Acordo Ortográfico prevê que, em certas formas verbais, como ‘lêem’, o acento circunflexo seja eliminado em Portugal. Mas no Brasil também vai haver alterações. Os brasileiros vão deixar de usar acentos circunflexos em ‘vôo’ e acentos agudos em palavras como ‘idéia’.
3) TREMA
É a principal cedência brasileira: o trema (usado em palavras como ‘freqüente’, ‘eloqüente’ e ‘seqeüestro’) desaparece.
4) K, W e Y
Com o Acordo Ortográfico, o alfabeto oficial português ganha três novas letras que, na verdade, já são usadas há muitos anos, sobretudo nos PALOP (onde fazem parte, por exemplo, da grafia do nome das cidades).


Agora, doutra fonte:
Principais alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico em Portugal, países africanos de língua oficial portuguesa e Timor
Eliminação de cês e pês não pronunciados em palavras como director, acção, protecção, baptismo, adoptar e excepção, as quais passam a escrever-se diretor, ação, proteção, batismo, adotar e exceção.
Parece que o primeiro-ministro português Marcelo Caetano se preparava para eliminar estas consoantes mudas quando a revolução do 25 de abril de 1974 pôs termo à sua governação. Pouco antes ele quase eliminou o acento grave. Devemos estar-lhe muito gratos por isso.

Principais alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico no Brasil
• Desaparece o trema. Em Portugal escreve-se aguentar, arguido, frequente e tranquilo. No Brasil as normas ortográficas em vigor estabelecem que estas palavras se escrevem agüentar, argüido, freqüente e tranqüilo. O trema é colocado sobre o u para indicar que esta letra é pronunciada. Em Portugal o trema não se usa desde 1945.
• O ditongo ei em palavras graves nunca é acentuado graficamente. Por isso, deixa-se de usar acento em palavras como assembléia e idéia. Atualmente tais palavras não levam acento em Portugal.


Principais alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico comuns a todos os países de língua portuguesa
• É simplificado e reduzido o emprego do hífen.
• O ditongo oi em palavras graves ou paroxítonas não leva acento. Escreveremos boia e heroico em vez de bóia e heróico.

Pronto, eu sou contra o acordo, como já disse, porque faz-me imensa confusão as palavras sem cês e sem pês, mas sinceramente, já nem sei o que pensar.

Pensava que as mudanças seriam em maior número.
Miguel a 20 de Janeiro de 2008 às 17:41

P.S.: os documentos com as mudanças foram escritos por portugueses que já começaram a escrever com as novas regras para se habituarem.

(se fosse escrever isto conforme o acordo, o texto não sofreria quaisquer mudanças)
Miguel a 20 de Janeiro de 2008 às 17:44

No teu último post fiz um comentário, e aqui estou novamente (realmente gosto de ler teus posts!)
Bom, já tive várias opiniões sobre o Acordo Ortográfico e é claro que é uma polêmica. Não é possível negar que terá alguns benefícios, mas mesmo assim sou contra. A confusão que irá causar por causa dos acentos no Brasil será inestimável! Minha opinião: ou extingue o uso dos acentos, ou os deixa como estão, ora! Tirar os acentos de palavras como "idéia" e "assembléia", a mim, parece imperscrutável! Li há alguns meses na revista Veja (revista de circulação nacional no Brasil e com uma alta reputação e prestígio): "O custo médio para a revisão e a preparação de um único livro ficaria em torno de 5 000 reais. A revisão de enciclopédias e dicionários seria ainda mais custosa (em torno de 200 mil reais)." Como vos podeis ver, seria um desperdício inestimável de dinheiro! Não seria correto desperdiçar tantos recursos, enquanto poderia economizar e empregá-los em fontes mais proveitosas! Pela minha parte, tanto faz ler "correcto" ou "correto", ou as várias palavras que possuem diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil. As mudanças, no que me diz respeito, são poucas, e quase não surtirá diferenças. O que me deixa mais indignada, é o pré-conceito de muitas pessoas, comentários como "Tenho orgulho em SER PORTUGUESA (não esqueça Sr. Ministro que os brasileiros é que estão a alterar a nossa língua." , " A nossa é a língua mãe. Não quero falar nem escrever brasileirês." essas falas, tiradas da site Não ao Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, pode-se perceber uma EVIDENTE arrogância por parte de alguns portugueses quanto ao português falado no Brasil. Ora vejam só, o Português é uma língua viva, e o Brasil foi colonizado por vários povos, cada um com uma contribuição lingüística diferente, é normal que não falemos o português de Portugal, assim como vós não falais o mesmo Português desde 1500 (um fato que comprova isso, por exemplo, é terem tirado o trema, enquanto nós não fizemos essa modificação). A mim muito me desgosta ver esse imenso muro de preconceitos e superioridade que afasta muitas nações. Acreditem, o Brasil não é só Tropa de Elite. Se vós achais isso, apenas prova que nada conheceis de meu país.
Abraços e boas leituras.
Carolina a 27 de Janeiro de 2008 às 17:18

Finalmente respondo ao comentário.
Acho que a minha opinião já ficou explicita nos vários posts: não sou a favor do acordo, mas respeito e não me faz incomoda absolutamente nada haver um português diferente nos dois lados do Atlântico.
Quanto ao que foi escrito no referido site por portugueses, acho que é compreensível o grande descontentamento e o facto, também evidente, é que a grande maioria das alterações que este acordo trará implicam uma mudança que nos porá a escrever tal como os brasileiros, daí os termos utilizados. A língua é de todos, ou melhor, é de cada um, dos portugueses, dos brasileiros, dos africanos e asiáticos.
Talvez os comentários no tal site não sejam os melhores já que penso não haver qualquer tipo de arrogância face ao povo brasileiro. Lembro: há anos que os portugueses acompanham novelas brasileiras, passando a usar muitas das suas palavras e até sotaque. Os brasileiros podem dizer o mesmo? Claramente não. E quanto à arrogância, dificilmente esqueço uma frase de uma professora catedrática brasileira: "a língua devia chama-se brasileiro, já que há mais falantes do português no Brasil do que no resto do mundo". Acha isto normal, dito por uma professora? Mas eu prefiro acreditar que esta senhora é uma excepção à regra e que os brasileiros não são assim tão... enfim, radicais como esta ela.

De qualquer forma, a verdade é que é preciso muito, muito mais do que a unificação da ortografia para aproximar mais os dois povos e as suas cultura.

Até Breve!
Fábio J. a 9 de Fevereiro de 2008 às 22:37

Por favor assine a nova petição. É a ultima hipótese de acabar com o acordo e desta vez tem q se deixar o nr de eleitor, veja aqui:
http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2009N872 (http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2009N872)

Foi criado um blogue para o efeito também: http://contraacordoortografico.blogspot.com/ (http://contraacordoortografico.blogspot.com/)
Por favor ajude-nos a divulgar que só começámos ontem e ainda somos um pequeno grupo de pessoas!
Comentário por Catarina — Dezembro 11, 2009 @ 22:31 (http://oinsurgente.org/2008/05/13/peticao-contra-o-acordo-ortografico-ja-superou-as-30000-assinaturas/#comment-63362)
Catarina a 11 de Dezembro de 2009 às 22:34

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