Fevereiro 16 2008
“O acordo ortográfico tem tanta excepção, omissão e casos especiais que não traz qualquer mudança efectiva”, disse o escritor angolano Mia Couto.
“Acho que [os governantes] estão a debater uma questão muito séria, muito séria - insistiu - sem informar suficientemente as pessoas sobre aquilo que estão a debater”, disse o escritor angolano Ondjaki.
“Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira. Olha a ortografia, sabe que palavra é que é, pronuncia correctamente”, portanto “acho que é um desperdício de energias, um desperdício de dinheiro, e penso que se devia gastar o pensamento e as forças em outra coisa qualquer”, disse a catedrática brasileira Maria Lúcia Lepecki.
"Há muitos anos que eu venho ouvindo falar deste acordo, que sai e não sai. Mas, se eu olhar para o meu próprio país, que é Moçambique, nós somos tão diversos que de vez em quando acho que cada um tem o direito de escrever a sua língua portuguesa", disse a escritora Paulina Chiziane.
“Eu acho que se podia dispensar este acordo. Escrevo em português e penso que os portugueses vão continuar a escrever - sobretudo os da minha geração - no código em que foram ensinados. Na minha idade (84 anos), não vou agora mudar para uma ortografia - digamos - comum”, disse o ensaísta, professor universitário e filósofo Eduardo Lourenço.
Estes são apenas cinco de todos aqueles cidadãos, portugueses, brasileiros ou africanos, enfim, falantes do Português, que têm muitas reservas quanto a este Acordo Ortográfico que, ao que parece, já está juridicamente em vigor em todo o mundo lusófono, uma vez que três países já o ratificaram.
O novo Ministro da Cultura português anunciou, há poucos dias, que Portugal vai mesmo ratificar o Acordo e pô-lo em prática, declarando ainda que a anteriormente referida “moratória não deve ser usada no acordo ortográfico”, devendo este ser rapidamente introduzido pelos editores literários e escolares nacionais.
A Assembleia da República vai ouvir vários especialistas (é pena muitos deles terem, desde logo, um opinião tendenciosa) acerca do Acordo Ortográfico da Língua portuguesa mas a verdade é que pouco ou nada poderá mudar. O Acordo Ortográfico é hoje uma realidade, uma lei internacional. Resta saber como vão os governos passar da teoria à prática e pôr milhões de pessoas a escrever de uma outra maneira, que para além de diferente apresenta várias falhas, muitas especificidade e imensa estupidez.
Já se sentem mais próximos uns dos outros, amigos portugueses, brasileiros, africanos e asiáticos? A mim também me parece que não...
Para terminar, uma última nota sobre a 9ª edição do encontro de escritores de expressão ibérica, as Correntes d’Escrita, que terminou hoje com a entrega do Prémio Literário Casino da Póvoa a Ruy Duarte de Carvalho, no valor de 20.000 euros, pela obra Desmedida - luanda, são paulo, são francisco e volta. Crónicas do Brasil. Eis um género de iniciativa a ser imitado.
Publicado por Fábio J. às 23:33

para ser franco, não percebo a utilidade que os governanrtes veem neste tratado, como foi dito "e um total desperdicio de energias".

Bom fim de semana
leitor a 17 de Fevereiro de 2008 às 16:07

Eu cada vez mais acho que o único objectivo de quem orienta este acordo é ver o seu nome escrito em meia dúzia de documentos, registado para a posteridade.
Uma perfeita inutilidade é o que este acordo é.

Boa semana!
Fábio J. a 24 de Fevereiro de 2008 às 23:39

Será que esse acordo sai???
Bom, aqui no Brasil, quase não ouvimos mais sobre isso...
Paz!
Ronni a 17 de Fevereiro de 2008 às 18:35

Tanto ou quanto sei o acordo já está em vigor em todos os países, uma vez que três deles já o ratificaram, entre os quais o Brasil.
É impressionante como estas coisas mudam e ninguém comunica aos cidadãos o que acontece.
Uma vergonha diria eu!

A ver vamos como é que isto se vai desenrolar.
Até Breve!
Fábio J. a 24 de Fevereiro de 2008 às 23:41

Não gosto muito desta história... Odeio muitas das mudanças que são feita na escrita.

Mas pelos vistos as opiniões contra não contam muito...
Raquel a 17 de Fevereiro de 2008 às 22:42

Eu sou contra muitas das mudanças, assim como a maioria das pessoas. Mas pouco podemos fazer...

Por mais pessoas que digam não a este acordo os Governos teimam em continuar com ele. Um grande desrespeito à democracia é o que eu chamo a isto.
Fábio J. a 24 de Fevereiro de 2008 às 23:44

Porto, 2008.02.19


ACORDO ORTOGRÁFICO

Num acordo é o diabo . às vezes perdemos
E se é de ortografia, ai... ai... ainda é pior
Vamos ter de esquecer o que aprendemos
E o que sabíamos vai desta p’ra melhor.

Tanta excepção, omissão e casos especiais
Que tornam a aprendizagem insuportável
E tudo isto torna a vida chata até de mais
Quando queremos é uma vida agradável.

Ó governantes da porra acertem lá o passo
Façam uma mudança séria nesse espaço
Para que toda a gente se sinta feliz e bem.

A escrita agradece que carinhosamente
Respeitem a única forma que está vigente
De nos comunicarmos e ouvirmos também

João Brito Sousa
JOÃO SOUSA a 19 de Fevereiro de 2008 às 01:17

Sim senhor, um belo soneto! E não podia estar mais de acordo com a sua mensagem.
Com tantos pontos que devem ser mudado na nossa sociedade lá foram os nossos governantes e académicos mudar a forma como um povo escreve. Um autêntico desrespeito!

Obrigado pelos versos.
A ver vamos como é que esta acordo se desenvolve.

Até Breve!
Fábio J. a 27 de Fevereiro de 2008 às 22:47

Aguardam-se notícias.

;) beijos.
A-de-Azul a 22 de Fevereiro de 2008 às 14:33

Olá amigo/a visita o blog: http://anti-famosos.blogs.sapo.pt/ que tem lá um desafio para ti! =)
O Tal a 24 de Fevereiro de 2008 às 12:34

O suposto acordo ortográfico constitui a sua própria negação, dado que consegue apenas uma convergência muito parcial.
E depois, quem conhece bem as diferenças entre a língua portuguesa e a língua brasileira sabe muito bem que as diferenças ortográficas são apenas a ponta do icebergue.
Eles adoptaram e continuam a adoptar construções gramaticais diferentes das nossas, termos estrangeiros sem qualquer respeito pelas regras do Português e até inventam palavras desnecessariamente (por exemplo, precisaram de inventar o verbo "gerenciar", esquecendo-se que o Português já lhes facultava o verbo "gerir" - há centenas de exemplos).
Além disso, esta tentativa de uniformização revela um total desconhecimento do que é a evolução das línguas. Porque é que hoje se falam línguas diferentes em Portugal, Espanha, França, Itália, Roménia, etc.? Porque o Latim que lhes deu origem evoluiu de formas diferentes nas várias regiões devido a contextos culturais, geográficos e climatéricos diferentes, bem como devido a influências externas diferentes. Ora, alguém acredita que vai ser possível amarrar artificialmente as várias versões do Português indefinidamente? É claro que não.
Tenho a certeza que daqui a dois ou três séculos as diferenças entre a língua falada em Portugal e a língua falada no Brasil serão equivalentes às diferenças entre as várias línguas de raiz latina, pelo que continuar a chamar Português a todas seria o mesmo que dizer que ainda se fala Latim nos países latinos.
O que está em jogo são interesses económicos brasileiros aos quais alguns intelectuais provincianos portugueses se venderam. Nada mais. E nós? Vamos permitir que a colonização linguística continue? Vamos continuar a permitir que as publicações brasileiras (em papel, em software, na Internet) sejam vendidas em Portugal sem qualquer alteração quando o mercado brasileiro, exceptuando alguns intelectuais, rejeita completamente as publicações portuguesas?
Estamos a ser "comidos" e o problema é que, aparentemente, alguns gostam.

Pedro Andrade
Chumbo a 8 de Abril de 2008 às 12:03

Gostei bastante da analogia feita com o latim. É, talvez, o melhor exemplo para demonstrar que, quer queiramos quer não, um língua evolui e fragmenta-se em várias igualmente ricas e interessantes.
Eu não gosto de ser radical em nada, mas lá que os brasileiros não demonstrar muita preocupação com a correcção das palavras que diárias mente usam (e criam), lá isso é. Incomoda-me particularmente as "misturas" que eles fazem entre o português e outras línguas, fundamentalmente o inglês. Mas é lá com eles. Como disse e muito bem, está relacionado com o contexto cultural, geográfico, etc., só não nos podem é obrigar a aceitar as suas invenções que, em Portugal, apenas podem ser consideradas grandes erros.
Eu diria mesmo que estamos a ser "engolidos", tal é a influencia que recebemos. Mas nós gostamos, gostamos muito, e há até quem goste tanto que seja a favor deste acordo. Falta-lhes compreender que Brasil e Portugal podem partilhar muito sem que para isso assinem um acordo ortográfico.

Obrigado pelo comentário e até breve!
Fábio J. a 19 de Abril de 2008 às 23:15

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