Maio 13 2008

A dois dias do debate na Assembleia da República, Vasco Graça Moura lança o livro O acordo ortográfico - a perspectiva do desastre, obra que reúne as principais intervenções e recentes a propósito do acordo ortográfico de 1991, incluindo a intervenção realizada na conferência internacional promovida pela Assembleia da República no passado dia 7 de Abril. “Trata-se de um contributo que faço na tripla qualidade de escritor, de cidadão e de político”, justifica Vasco Graça Moura.

Vasco Graça Moura defende ainda que “a aplicação do acordo não levará apenas ao caos no ensino nos oito países. Levará a que a língua portuguesa se cubra de ridículo no plano internacional. (...) Mas sem se abordar a questão dos interesses políticos, económicos ou geo-estratégicos em jogo, qualquer leigo verifica que o acordo não traz qualquer solução inteligente. Não traz qualquer utilidade ou mais-valia. Enferma de muitos vícios e, a entrar em vigor, será altamente pernicioso nos mais variados planos”.

Mas se uns continuam fies à actual ortográfica, muitos outros já se renderam às novas regras. Depois da Texto Editora publicar o Novo Dicionário da Língua Portuguesa - Conforme Acordo Ortográfico, bem como o guia Atual, foi a vez da Porto Editora publicar os seus dicionários: o Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2009 - Acordo Ortográfico, que apresenta simultaneamente as duas ortográfica, bem como o Guia Prático do Acordo Ortográfico.

E se estas publicações podem ser classificadas como precipitadas, o mesmo não se pode dizer do exemplo da Priberam, responsável pela ferramenta linguística Flip, usada, por exemplo, na verificação ortográfica aqui do blog Os Livros. Esta empresa apresentou hoje a sua estratégia para se adaptar às mudanças ortográficas, já que no Brasil, onde também opera, o Acordo é já um documento consumado, com entrada em vigor no início de 2010. De notar que a Priberam pretende manter a comercialização de diferentes pacotes para Portugal e para o Brasil, estando também prevista a possibilidade de se optar pela validação de uma dupla grafia. Complicado? É a isto que o acordo obriga...

Por último, a derradeira tentativa para impedir a ratificação do Acordo Ortográfico, em Portugal, é o Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa. A petição online conta com algumas personalidades de relevância do mundo da cultura e da política como primeiros signatários. Neste momento, a petição conta com mais de 30 mil signatários mas as primeiras 17300 assinaturas já foram entregues ao Presidente da Assembleia da República. Ainda não assinei, mas pretendo faze-lo brevemente, embora não acredite na sua utilidade.

Publicado por Fábio J. às 23:05

A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões. No debate sobre o assunto, havido ainda não há muito tempo na TV, sobre o assunto, um escritor angolano declarou que já não escrevia as letras mudas. Não será isto um aviso e um sinal para a língua portuguesa?

Se Portugal teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.

Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.

O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos PALOPs ) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. A população do Brasil permite altas tiragens das publicações que ficarão mais baratas e, se houver maior harmonização, as editoras portuguesas (e amanhã dos PALOPs ) poderão vender mais no Brasil.

Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!

Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há cerca de duzentos anos. Outros duzentos e já não nos entenderemos: terão que ser consideradas duas línguas distintas.

O acordo ortográfico é uma decisão apenas política e quanto aos linguistas, apenas terão que assimilar as alterações e segui-las. Não se poderá alterar por decreto que uma molécula de água passa a ter dois átomos de oxigénio e outros dois de hidrogénio; ou que 5 vezes 5 passa a ser 28. Mas poderá alterar-se por decreto a grafia de "acção" para "ação" e quem não aceitar a alteração passa a cometer um erro, incluindo o célebre Prof. Graça Moura. Com todo o respeito, mas também não são os Juizes que legislam, apenas têm que interpretar e aplicar as leis.

Portugal nada ganhará de imediato com a alteração mas tem muito a perder no futuro se rejeitar agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.

Zé da Burra o Alentejano

Zé da Burra o Alentejano a 15 de Maio de 2008 às 09:35

O Acordo só vai proporcionar mais grafias diferentes do português - a dos que querem o acordo, a dos portugueses que não querem o acordo, a dos brasileiros que não querem o acordo, a dos angolanos que não querem o acordo, a dos timorenses que não querem o acordo, a dos moçambicanos que não querem o acordo, a dos guineenses que não querem o acordo, ... Para além daqueles que vão adoptar apenas algumas das alterações XD

Resumindo, não vai servir para nada.

Lá isso é verdade.
Se os opositores do Acordo teimarem numa ortografia "tradicional", mesmo que na marginalidade, criar-se-ão novas variantes (embora condenadas à extinção, devido às novas gerações, instruídas de forma diferente).

Será? Há muitos professores contra o acordo.

Se Portugal, o Brasil, Angola, Moçambique, Timor-Leste, etc... não aceitarem e aplicarem o acordo, daqui a umas centenas de anos haverá várias línguas que derivaram do português mas que não se poderão chamar como tal e nem se entenderão. O grego e o latim também originaram diversas línguas, de entre elas, o romeno, o italiano, o francês, o espanhol, português nas suas várias versões (por enquanto). 
Zé da Burra o Alentejano a 21 de Outubro de 2009 às 15:16

Tudo isso são especulações, embora eu próprio acredite que, dê por onde der, com ou sem Acordo ortográfico, é provável que o Português se divida em novas línguas.
E a comparação com o latim faz-me reflectir: acha que as culturas europeias, de todos os países onde se falam línguas românicas, seriam melhores se o latim não se tivesse dividido? Seria melhor se falássemos todos latim? É que isso nem me parece fazer muito sentido...

A língua é das pessoas, e se as pessoas mudam, a língua também pode mudar... É natural que assim seja. É a diferença entre as línguas vivas e as línguas mortas.
Fábio J. a 21 de Outubro de 2009 às 23:21

Não! Acho que o mundo só teria a ganhar se todos falassem uma mesma língua. Talvez isso venha a acontecer um dia. Neste momento, o inglês é a língua mais bem posicionada para atingir esse propósito.
Zé da Burra a 22 de Outubro de 2009 às 15:02

Sem dúvida que todos ganharíamos muito se só se falasse uma língua. No entanto, a realidade é outra, e hoje essa unificação linguística seria mais desastrosa e triste do que a divisão actual.
Mas sim, nisso concordo: talvez um dia todos falemos inglês. Espero que como segunda língua, mas é provável que haja essa unidade...
Fábio J. a 24 de Outubro de 2009 às 23:43

Eu compreendo o ponto de vista, e concordo com grande parte do que foi escrito, mas mais uma vez reafirmo que não me parece tratar-se de orgulho nem nada do género! Trata-se, simplesmente, de defender que o acordo não trará a tão desejada aproximação das variantes do português, constituindo, pelo contrário, um problema para os actuais falantes.
Com ou sem ortografia iguais, os vocábulos, as construções frásicas e a pronúncia serão completamente diferentes. A língua continuará a divergir e é provável que, como escreveu, daqui a duzentos anos o Português se fragmente e dê origem a, quem sabe, uma Língua Brasileira ou Moçambicana... mas qual o problema? Se a unidade é assim tão importante porque não realizar um acordo com a Espanha, criando o "portunhol"? Sei que posso parecer radicalista, mas a questão é mesmo esta: o Acordo Ortográfico é completamente inútil.

Quanto à última parte, é lógico que todos terão de respeitar o Acordo, mas isso não impede que, numa sociedade democrática, defendam uma posição contrária à política. Para além disso, da maneira que este Acordo foi formulado diria que cabe a cada um escolher como quer escrever: uma língua não é susceptível à legislação. Uma língua é construída por quem a fala. Não pode ser controlada por nenhuma lei...
Fábio J. a 21 de Maio de 2008 às 23:03

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