Fevereiro 10 2009
Os livros que leio dividem-se em dois grupos: o daqueles que são desejados, e que por isso esperam na lista pela sua vez, e o daqueles que, dizendo de uma forma poética, simplesmente surgem na estante.
A Viagem do Elefante surgiu! Surgiu e impôs-se, não fosse ela uma obra da autoria de José Saramago, escritor que admiro, e o seu regresso à ficção histórica, género que me atrai e que, contado pelo Nobel português, simplesmente adoro.
A estória começa na corte portuguesa do século XVI, quando D. João III e Dona Catarina de Áustria se questionam acerca do presente de casamento que haviam dado ao arquiduque Maximiliano da Áustria. Talvez o presente não tivesse sido apropriado e talvez o elefante Salomão, vindo da Índia, o fosse. Decidem oferecer o elefante, e com ele o cornaca, o seu tratador. Estes dois partem, então, numa viagem que os levará até Viena, viagem que é também uma aventura e um palco de ideologias e valores.
As peripécias sucedem-se, sempre bem contadas e com o humor e tom crítico que caracterizam o autor. E quando a narrativa tinha tudo para ser monótona, provavelmente pela ausência de factos históricos acerca da migração ou pela simples monotonia que é a realidade, o autor utiliza as personagens para impulsionar a acção, descrevendo os seus medos, os seus sonhos, as suas vontades e todos aqueles pensamentos que invadem a mente de quem caminha sem poder olhar para trás. Destaco o cornaca, Subhro em Portugal, Fritz na Áustria, um homem invulgarmente sábio na sua simplicidade de subalterno e que, mais do que todos os outros, reflecte a aceitação consciente daquilo que a vida proporciona a cada ser.
Mais uma vez, Saramago prova ser um excelente contador de histórias. No entanto, pareceu-me haver algo estranho no seu estilo, positivamente estranho, mas evidentemente diferente. A proximidade com o leitor continua a mesma: quase que ouvia o narrador a falar ao meu lado, tal é a naturalidade e simplicidade com que a história é apresentada.
O fim da obra é digno de destaque. Não pela surpresa, que não a houve, mas pelo modo como nos é apresentado e pelo que representa. Afinal um fim, mesmo o fim da vida de um elefante, é sempre injusto. Ou talvez não. Talvez o que importe seja que a viagem, qualquer viagem, seja cumprida, e para isso há que já chegar ao fim, há que morrer.
Sem dúvida alguma, valeu a pena ler esta obra. Continuo a preferir o Memorial do Convento, porventura mais surreal e fantástico, mas A Viagem do Elefante não lhe fica a dever na qualidade e, a meu ver, supera-o mesmo em humor e cumplicidade com o leitor.
<i>A Viagem do Elefante</i>
A Viagem do Elefante de José Saramago
Boas Leituras!
P.S.: A equipa dos Blogs Sapo tem uma pontaria ao destacar este blog logo quando eu ando mais ocupado... Mas obrigado! e as boas-vindas aos que leitores que por aqui passam. ;)
Publicado por Fábio J. às 22:04

Olá!! Realmente, já há algum tempo que nao te via postar nada... mas como se diz: mais vale pouco, mas com qualidade!!!
Já estive tentado em comprar este novo livro de Saramago, mas se calhar ao contrário de ti, não gosto de ter livros à espera na parteleira... simplesmente não compro, enquanto não for a sua vez de ser lido... e também, se não o comprei, foi porque ando meio amuado nas leituras e depois enfrentar uma leitura tão... como classificar?... diferente no estilo da escrita, penso estar ainda menos com apetite para tal!!! No entanto, é coincidência, que acabo de ver "Blindness", no meu pc... e fiquei surpreendido, pela positiva, com toda aquela ideologia... e depois "ouvir-te" falar desse livro, confesso que até dá mesmo vontade de comprar... talvez o faça... quiçá?
E muitos parabéns pelo destaque, e não te preocupes, que não é a quantidade que merece destaque, mas sim a qualidade... eu até que pensava que nunca mais se decidiam a fazer o destasque a este blog!!! ;P Muitos Parabéns, não que seja algo de extraordinário, mas sinceramente, já estava farto de ver destaques de blogs que pouco me diziam!!!
E sem mais para dizer, retiro-me!!! lol
stevs a 11 de Fevereiro de 2009 às 01:13

(Eu demoro mas respondo aos comentários :p)

Antes de mais, eu também não gosto de ter livros por ler na estante. Quer dizer, gosto de ter sempre outro livro para ler, quando acabo um, mas não gosto de olhar para estante e ver muitos lá parados, por ler. Talvez me tenha expressado mal.

Não sei se é por já me ter habituado ao estilo do autor, mas a verdade é que este livro não me pareceu difícil de ler. E se é verdade que o ritmo é um pouco lento, não se trata duma leitura aborrecida, não fosse o autor tão dinâmico.
No que toca ao Ensaio sobre a Cegueira, é um estilo bastante diferente, aliás, basta ler a sinopse para o perceber, e tenho reparado que são muitos aqueles que ou gostam desse lado de Saramago ou deste, na ficção histórica. Mas ambos são bons e é provável que gostasses. Quando tiveres uma oportunidade aproveita e depois diz o que achaste.

Quanto ao destaque, muito obrigado pelo que escreveste. Na verdade já é a terceira vez que sou destacado pela equipa da SAPO. É bom ver que não passamos totalmente despercebidos.

Obrigado pela tua visita e comentário.
Um abraço!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:51

Olá caro crítico!Gostava de elogiar o seu blog, que descobri por acaso. Muito interessante e uma excelente companhia para quem tem prazer pela leitura. Vou passar por cá mais vezes.Bom trabalho.

Marise
Marise a 11 de Fevereiro de 2009 às 11:16

Muito obrigado pela simpatia e visita.
Todos aqueles que gostam de partilhar as suas opiniões sobre livros e literatura são bem-vindos!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 21:52

Parabéns pelo destaque.
Gostei do seu blogue.
Saudações Reikianas
NAMASTÊ
Viktor a 11 de Fevereiro de 2009 às 11:47

Também achei "A viagem do elefante" um livro excepcional, numa narrativa envolvente para uma história simples...
Fátima Emídio a 11 de Fevereiro de 2009 às 17:49

São exactamente essas as palavras: simples e envolvente, o resultado é excepcional. Está tudo dito!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:24

Sinto uma grande proximidade entre A Viagem do Elefante e Memorial do Convento. E, como você, prefiro o segundo, mas não deixo de admirar (e de ter apreciado muito a leitura) da viagem de Salomão (ou Solimão).
Leonardo Pastor a 11 de Fevereiro de 2009 às 18:34

Acho os livros parecidos porque ambos são históricos e porque em ambos Saramago mostra como sabe como ser um excelente contador de histórias.
Eu prefiro o Memorial sobretudo pela dinâmica da narrativa e pelos diversos pormenores tão imaginativos e fantásticos. É mesmo um bom livro.
Mas é como diz: A Viagem também é um bom livro e um livro que gostei de ler.
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:29

Olá!

Somos um grupo de jovens dos 10 aos 14 anos que participa num clube de leitura.Criámos um blog... dá uma olhadela

Bjs

Ps. vou adicionar-te aos meus links
Só para pessoas cultas a 11 de Fevereiro de 2009 às 20:06

Olá.

Quando comentaram fui logo lá espreitar, mas vou voltar.
Obrigado por me adicionarem aos vossos links. Acho que vou fazer o mesmo com vocês.

P.S.: Por favor não levem a mal, mas o título do vosso blogue não é um pouco preconceituoso? É que os livros são para todos, leiam muito ou pouco, saibam muito ou pouco. Vocês lá sabem.

Até Breve!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:33

Olá. Já visitei este blog várias vezes antes do destaque. Parabéns por teres essa enorme paixão pelas palavras, pelos livros, pelas histórias, por todas as diferentes criatividades. Também ao analisares as obras, vê-se que se admiras a capacidade ilimitada da nossa imaginação. No fundo tu és um apaixonado pelo infinito. (Desculpa lá a frontalidade!)

Rosie a 11 de Fevereiro de 2009 às 22:11

Olá.

Gostei muito do teu comentário!
É verdade que gosto de me perder na criatividade de uma boa história. E sim, admiro imenso o trabalho e a imaginação dos escritores e de todos aqueles que são, de algum modo, artistas. Afinal, é a imaginação e a criatividade que nos caracterizam enquanto humanos.

Não tens de pedir desculpas! Sinto-me lisonjeado e agradeço as tuas palavras.
Até Breve!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:38

Assumo aqui a minha teimosia, que até há pouco tempo me fez recusar ler um único livro de Saramago. E foi precisamente no último dia do ano que decidi dar o benefício da dúvida e comprar o "meu primeiro livro" de José Saramago - Memorial do Convento. Acho que, também tive pontaria, pois fiquei fascinado por este fantástico contador de histórias.
Hoje, não me custa nada assumir a minha falta de senso ao teimar até então em não ler nada deste autor, porque mau mesmo, é nunca assumir.
Estou decidido a ler outros títulos do autor e, acho que vou aproveitar o comentário positivo da "Viagem do Elefante".
Boas leituras.
Anónimo a 12 de Fevereiro de 2009 às 08:21

Eu também comecei pelo Memorial, e até agora é o que mais gostei. É um livro mágico.
E não tenhas problemas em assumir a tua teimosia. Existem diversos autores aos quais digo constantemente não. Lobo Antunes e Salman Rushdie são dois exemplos. Mas, tal como fizeste, também eu hei-de ler estes autores.

Espero que continues a ler Saramago, um excelente contador, e outros autores que à partida não lerias. Podes ser grandes surpresas.

Boas Leituras!
Fábio J. a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:43

Este livro do Saramago também me surgiu na estante porque me foi oferecido. Tinha outros já em lista de espera há mais tempo mas como era pequeno e era de Saramago passou à frente.
Eu já li quase todos os livros dele. O primeiro foi a Jangada de Pedra e depois por aí fora. Todos os que li são superiores a este. Este é um livro, na minha opinião, com pouco fôlego e em sem a garra dos outros. É um Saramago menor. Tem lá muitos dos elementos da sua "marca" mas de uma forma incipiente Não é nada quando comparado com o Ensaio sobre a cegueira, Todos os Nomes ou a Caverna que corresponde a uma fase mais negra de Saramago muito especial. A viagem do Elefante é uma brincadeira, é como se de repente , Saramago nos quisesse presentear com um livro infantil. Não tem a erudição verdadeira mas displicente dos outros nem o golpe de génio. Não me conseguiu fascinar pela primeira vez. Será que fui eu quem mudou ou foi o Saramago? :)
Joshua a 13 de Fevereiro de 2009 às 15:19

Eu ainda só li quatro livros do autor: ainda estou a começar. :)
Contudo concordo quando diz que tem pouco fôlego. Não é um livro com aqueles momentos. É um livro que se lê, mas lê-se bem e com prazer sobretudo pela excelente capacidade de Saramago para contar.
Quanto ao termo fascinante... sim, também não me parece fascinante. É um livro muito mais... simples, ou talvez monótono se comparado com outros. Mas, como escrevi, acho que tem aspectos positivos e, na verdade, acaba por ser um bom livro, sem grandes falhas, embora sem grandes riscos. Talvez seja esse o problema!

Há quem diga (o autor é um deles) que Saramago mudou devido à experiência de quase morte. Talvez isso se tenha reflectido na obra, na qual há uma maior preocupação com cada momento e com o leitor.

Boas Leituras!
Fábio J. a 24 de Fevereiro de 2009 às 22:06

Acabei há pouco "A Viagem do Elefante" e, como que por acaso, descobri este blog. Li o post e os comentários e apeteceu-me escrever ( o que não é meu hábito, porque sempre fui só leitora, nunca "escrevinhadora"). O livro não me surgiu nas mãos, comprei-o. Queria lê-lo com o mesmo fôlego com que li quase todos os outros de Saramago, numa tarde, numa noite sem pregar olho, de uma assentada. O ritual repetiu-se, mas com um prazer e uma estranheza diferentes. Um dos seus comentadores escreveu que este livro era uma "brincadeira" e eu tive a mesma sensação: uma "brincadeira" muito bem escrita! É verdade que não é um livro com a erudição e a prosa apurada de tantos outros do Saramago, mas é puro prazer. E a literatura, na essência, para mim, não é mais do que isso.
Talvez Saramago esteja velho, talvez envelhecer seja fazer o que nos dá prazer, despojando-nos de erudições acessórias e mantendo, no caso dele, sentido crítico, ironia, humor e uma enorme capacidade para contar histórias.
Lembro-me de um documentário que a RTP2 passou, depois da morte de Sophia de Mello Breyner , "O Nome das Coisas". Quase no final, há um depoimento de Manuel Alegre, em que ele relata o último encontro com Sophia . Já muito doente, pediu-lhe que lhe recitasse um soneto de Camões (se não me engano, "Erros meus, má fortuna, amor ardente..."). Acompanhou-o com palavras durante algum tempo, depois as palavras faltaram, e continuou num murmúrio ininteligível que era apenas o ritmo, o som do poema - "Poesia em estado puro."
Parabéns pelo seu blog. Vou de certeza voltar muitas vezes para o ler, embora a promessa não se estenda a comentá-lo.
Maria João a 28 de Fevereiro de 2009 às 15:24

Agradeço desde já o comentário.
Note-se que eu também comprei o livro... contudo não o fiz por o querer ler, em específico (existem outros livros do autor que já estão há muito na lista), mas porque quis aproveitar uma campanha promocional.
Concordo com o que escreveu. Este livro tem várias particularidades especiais, algumas delas proporcionadoras de uma prazer especial para quem gosta de ler. Este não me parece um livro arrebatador ou que se leia num impulso. É, pelo contrário, um livro para saborear e apreciar e desfrutar de cada episódio bem contado e bem humorado.

Gostei muito de tomar conhecimento desse encontro tão especial entre os dois poetas. Que dizer? A arte - porque a literatura é arte - é assim: mágica.
Mais uma vez obrigado e Até Breve!
Fábio J. a 6 de Março de 2009 às 23:11

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