Outubro 20 2009
Venho passear-me alguns minutos pela internet e deparo-me com isto:
O eurodeputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir "envergonhado" com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.
Apesar de não gostar de alimentar polémicas (1-2), desta vez não posso deixar de declarar a minha estupefacção.
As últimas declarações de Saramago sobre a Bíblia e o Papa estão condensadas aqui e aqui.
As opiniões do Nobel português acerca da religião já são mais do que conhecidas. A surpresa é vir agora um ser claramente afectado fazer sugestões, a meu ver, idiotas e totalitárias. Ele fala em liberdade de expressão quando se esquece da liberdade de crença e ideologia, direitos, e também deveres, que qualquer cidadão bem formado não pode abnegar.
Pior do que a concepção francamente ultrapassada é a autoria… mas, em Portugal, estas aberrações já começam a ser banais.
Faça Saramago o que fizer, depois disto também eu penso renunciar à cidadania portuguesa. No entanto, quero acreditar que em Portugal ainda há quem respeite e tolere diferentes concepções do mundo.
Publicado por Fábio J. às 21:50

Em último caso, se o país não for suficientemente grande para ambos, o senhor euro-deputado pode ele próprio renunciar a cidadania... É apenas uma solução que apresento, caso Saramago não ceda à pressão de Mário David.
SkyStorm a 21 de Outubro de 2009 às 13:36

Fosse assim tão fácil ignorar pessoas como este deputado e talvez Portugal fosse uma melhor nação. Mas há que respeitar uns e outros, mesmo que uns tais não mereçam grande respeito nem saibam o significado de tal palavra. 
Saramago já "respondeu". Bem, para variar... cada vez gosto mais dele ;)
Fábio J. a 21 de Outubro de 2009 às 23:12

Exato!!! Que coisa mais absurda!!!!!
carla martins a 21 de Outubro de 2009 às 14:46

Absurda e injuriosa! Não só é uma falta de respeito pela liberdade de Saramago, como transmite a ideia de uma Portugal retrógrado e totalitário. Espera, será que Portugal não é mesmo um país assim?... é que depois ainda vale a pena reflectir sobre quantos portugueses partilham da opinião do tal deputado. Enfim.
Fábio J. a 21 de Outubro de 2009 às 23:14

Na minha opinião, o Saramago demonstra uma senilidade vincada!
Quer se goste ou não, o facto de se "ser" um Nobel, aufere-lhe responsabilidades e respeito e este individuo transpira arrogância e ignobilidade social!
É um verdadeiro cromo, tal como o Alberto João ou a Maria João Pires...pisam o ventre que os pariu!
Mike a 21 de Outubro de 2009 às 21:51

Afirmar que estas afirmações acerca da Igreja e da Bíblia representam senilidade é, a meu ver, uma espécie de contradição. Achas, sinceramente, que alguém senil poderia fazer as elações e as reflecções que Saramago faz? Existe lógica e veracidade inegáveis nas suas afirmações. É que o Nobel não se limita a afirmar: ele apresenta as suas razões e justificações. E, de qualquer modo, são as suas opiniões e ideologias. É livre de as ter.

E o facto de ser Nobel, a meu ver, faz com que o autor deva, ainda mais, partilhar a sua visão do mundo. Talvez, digo eu, todos tenhamos algo a aprender com ele. Eu acho que tenho, e não vejo mal nenhum nisso.

E quanto à comparação com Alberto João Jardim ou mesmo a Maria João Pires (que também tem as suas ideologias, mas que em pouco ou nada se comparam às temáticas exploradas por Saramago), tal pensamento parece-me um exagero, senão mesmo uma idiotice. É misturar pessoas e ideias que em nada se relacionam. Só mesmo na polémica, mas junta-los no mesmo saco apenas pela polémica apenas reflecte uma grande falha no conhecimento acerca das opiniões de cada um.

E o ventre... o ventre pode parir, mas não faz as pessoas nem as suas ideologias. Essa é, a meu ver, uma visão totalitária.
Fábio J. a 21 de Outubro de 2009 às 23:32

Caro, a mim não me incomoda, que o senhor, no exercício da sua liberdade criativa, escreva sobre personagens bíblicas ou, sequer, que use da sua escrita para difamar o Livro Sagrado, ou que se sirva dela para ofender todos os crentes! E aqui, é curioso que o senhor seja mais fundamentalista do que a maior parte daqueles que crêem em Deus!

O que me incomoda em Saramago, tal como me incomodou em Dan Brown (e em AJJardim e MJPires relativo e avaliado em comparação), é que o escritor abuse da ignorância de outrem para questionar os fundamentos da fé cristã!

Quando afirma que se limita “a levantar as pedras e a mostrar esta realidade escondida atrás delas (http://www.dnoticias.pt/default.aspx?file_id=dn01010403191009&id_user=)”, assume que a fantasia/ficção que criou para o livro é uma verdade hermenêutica. É, portanto, desonesto da sua parte, pois o objectivo é levar os mais incautos a tomar a ficção por realidade.
Estas afirmações têm, contudo, o condão de evidenciar a agenda de Saramago, bem como de outros ateus militantes: o que pretendem é promover uma evangelização ao contrário que é como quem diz, promover o ateísmo, como crença dominante. E assim se percebe quem é que é fundamentalista, nesta dicotomia religião-laicidade.

Fosse eu fundamentalista ou tivesse qualquer religião e garanto que lhe lançava uma fatwa!

Relativamente à tua critica sobre o meu comentário...é a tua opinião e não a vou comentar, porque se trata de uma crítica pobre e desprovida de conhecimento e informação que jamais poderás retirar de meia duzia de palavras...ainda assim, fizeste um excelente trabalho crítico! ;)

Deixo-te uma dica, não abuses do Totalitarismo porque só esse facto já o é!!!

Mike a 22 de Outubro de 2009 às 09:48

Está bem visto que as opiniões de Saramago também não me incomodam a mim, até porque, em boa verdade, não vejo razões para os crentes se sentirem ofendidos. Não gosto de falsos puritanismos e parece-me que um crente que seja crente não sentirá a sua fé abalada pelas declarações do escritor: se for uma pessoa confiante nas suas próprias ideologias, apenas lamentará a ignorância do Nobel e não pensará mais nelas. Talvez vivamos num mundo onde as pessoas gostam de se afirmar ofendidas. Há que falar, discutir, praguejar, fundamentar... Mas já estou a fugir ao tema.

Quanto ao "abusar da ignorância de outrem", ou seja, pelo que percebi, manipular as massas, diria que na religião, se isso existe, é bem feito para os ignorantes: como é que se pode fazer parte de uma determinada e concreta religião e não a conhecer em profundidade? É que se não se conhece, não se faz parte dela. E não há (ou não devia haver) mal nenhum nisso, pois cada um deve poder ver Deus como quiser, sem dogmas. Aliás, se formos a ver bem, a maioria dos católicos que têm visto estas notícias sente-se ofendido apenas porque a Igreja mostrou o seu desagrado, e não por discordar da opinião de Saramago. Lá está, é o "abusar da ignorância de outrem" visto por outro ângulo.

Mais uma vez, interpreto essas palavras do Nobel de outra maneira, ou melhor, tenho em conta o contexto. É que, como ele próprio já referiu, tem-se falado muito no tema sem sequer se referir o Caim. Eu não li o livro, não sei se já o leste. Mas parece-me que Saramago não quer, na sua ficção, mostrar uma realidade que se sobreponha à da Bíblia. Se assim fosse, o livro nem seria um romance mas sim um ensaio. E sendo um romance, os leitores sabem, à partida, que se trata de especulação e do ponto de vista do autor. Eu gosto imenso das obras de Saramago, mas nem por isso vou dizer "ámen, ámen" e seguir as suas palavras. É a tal história de ter espírito crítico, como já falei. Pois embora eu não veja essa espécie de "teoria da conspiração" em torno das intenções de Saramago (se é que ele as tem), cada leitor é que deve avaliar o que lê. E quanto ao fundamentalismo, o escritor justifica as suas opiniões, portanto, a meu ver, não se trata de fundamentalismo. É apenas um ateu a analisar a Bíblia.
E já agora, só a intenção de lhe lançar uma fatwa (presumo que um atentado) não é já fundamentalismo, e do extremista? Afinal, incomodas-te ou não com o que o homem diz?

Por último, foi o facto de eu achar a comparação entre o escritor, o político e a pianista uma idiotice que te ofendeu? Lamento que assim seja. De qualquer modo, a minha crítica deve ter sido mesmo pobre porque eu, sinceramente, não sei que crítica é que fiz, ou a quem.
E quanto ao totalitarismo, não acho que tenha abusado, mas ficarei atento.

Obrigado pelo teu comentário!
Gosto destas discussões, caso ainda não se tenha notado ;)
Fábio J. a 24 de Outubro de 2009 às 23:18

Esta é uma daquelas discussões que não levará a nada a não ser um endurecimento de posições. Entretanto, a Caminho agradece a extra-visibilidade. O livro vende-se ( esgota ) pelo autor ser quem é e pela própria confusão gerada pelos ataques e contra-ataques mutuos.
Sinceramente, fiquei mais chateado quando Saramgo sugeriu a tal anexação de Portugal pela Espanha. Isso sim, espantou. Não me espanta que o "Zé Anónimo" diga isso numa conversa de café, em jeito de desabafo, agora quando isso é dito por uma figura de proa da cultura portuguesa... Será que ele se lembrou que estariamos sob um regime monárquico? Bem, ele gosta de lá viver... 

Não me parece que hajam livros sagrados  que sejam manuais de maus costumes, apesar de algumas passagens dignas de Tarantino. Até acho que o Deus católico ( tirando o Velho Testamento ) é demasiado brando. Esse "perdoar os pecadores" parece-se em demasia com a justiça portuguesa e isso dá-me logo comichões. O que há é quem tenha o costume de os intepretar para fazer o mal... Para isso nunca faltaram idiotas... perdão, voluntários, fosse qual fosse a religião.

Tudo vai da maneira como lemos as coisas, neste caso a Biblia. Eu ( não sendo católico praticante nem "despraticante" ) retiro aquilo que acho essencial para certas ideias que defendo - confesso ser simplista e ter algumas ideias mirabolantes no que diz respeito a consciências superiores e afins.

Já a Igreja é uma centopeia com muitos "pés de barro". Além de pecados do passado, continua a pecar por ser uma instituição de homens, que finge não o ser, fingindo ser mandatada por uma entidade divina que, na realidade, nunca lhes encumbiu o sermão nestes termos, nem mesmo na Biblia. Prefiro levantar uma pedra ou cortar um pedaço de madeira, se é que me entendem...


Saramago gosta de chocar, a idade e o estatuto permitem-lhe fazer isso. Pode ter ou não razão, dependendo daquilo em que acreditam. Algumas vezes julgo que tem, outras penso que também ele tem maus costumes ou talvez seja apenas inveja por não poder viver como ele... 
Pedro Ventura a 23 de Outubro de 2009 às 01:42

Concordo. A discussão não levará a nada, aliás, por estes dias já pouco se houve falar do assunto. E, claro, tudo isto é publicidade gratuita... Não sei é se isso é bom ou mau.
A possível União Ibérica não me choca. Considero Portugal e Espanha dois países irmãos e, como Saramago diz, é impossível prever de que modo as politicas dos dois países irão evoluir. Existem infindáveis hipóteses: a união é uma delas. E, sinceramente, apenas de me considerar patriota, não tal conceito ibérico não me choca. E não penso como tu: Saramago pode ser uma figura de referência, mas não é por isso que deve deixar de expressar as suas ideologias. Cabe a cada um aceitá-las ou não, afinal todos somos cidadãos activos e críticos... ;)

Deus é uma figura tão, mas tão ambígua que se descredibiliza a si mesmo. Desde logo, pergunto-me: afinal ele é (ou deve ser) bom ou mau? Basta começar por aí para se perceber que muitas perguntas não têm resposta... E quanto à Igreja (institucionalizada), nem me alongo, pois não consigo encontrar justificações lógicas para a sua existência: se pelo menos fosse o que teoricamente devia ser... Enfim.

Sim, Saramago talvez "goste" de chocar, embora eu, quiçá por ingenuidade, prefira acreditar que tudo aquilo são simples ideologias críticas e sem preconceitos. Acho que vou aprendendo a pensar com as suas ideias pois, mesmo que não concorde com eles, e não concordo com tudo, pelo menos desenvolvo um espírito crítico, o que é claramente positivo.
Esperemos que Saramago ainda continue por ai a chocar muita gente. Os portugueses precisam de se chocar para agir e pensar...
Fábio J. a 30 de Outubro de 2009 às 22:47

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