Agosto 26 2010

Uma das minhas últimas incursões literárias destas férias foi em O Amante, de Marguerite Duras, uma novela aparentemente autobiográfica com uma construção singular. Publicada originalmente em 1984, esta história, se é que assim posso designar tal amálgama de narrativas, tem início em 1929, na Indochina francesa. Na verdade, será melhor referir-me à obra como uma colectânea de memórias em torno duma relação amorosa, na qual o tempo é uma peça maleável, pelo que me é difícil precisar quando começam ou acabam os acontecimentos nela narrados. Esta é, aliás, uma particularidade interessante desta obra sem capítulos, que torna a sua apreciação possível apenas quando se juntam os tempos e os lugares e se observa uma história una.

A narrativa começa com uma velha mulher recordando o dia em que um homem lhe diz quão bonita é, com o seu rosto devastado. É então que as imagens surgem, e em menos de nada estamos junto dela, com os seus 15 anos, a atravessar numa barcaça o rio Mékong e conhecendo um homem chinês, filho de uma magnata local, que se tornaria seu amante. A relação que naquele instante começa é, porém, mero reflexo da alienação familiar e das condições económicas que moldaram aquela adolescente europeia, para a qual o “muito cedo” foi já “tarde demais”. Não é claro se ela o ama ou se em algum momento o chega a amar, mas é com ele, na sua limusina e no seu apartamento, separada do mundo por simples persianas, que escapa às contingências da vida e à sua mãe viúva e depressiva, passando a traçar, sozinha, o seu próprio caminho.

Não posso dizer que gostei, pois tudo me pareceu demasiado confuso para ser compreendido. As frases e parágrafos curtos foram facilmente assimilados, mas, pelo contrário, não consegui alcançar o cerne da narrativa. Era como se, ao acompanhar as recordações e os monólogos internos da narradora, cada página me afastasse mais da protagonista (ou seja, dela mesma), sem me fazer questionar o enredo, mas levantando várias questões.

A obra tem o suficiente para aguçar a minha curiosidade, está repleta de imagens fortes com o seu quê de incómodo, aversão e raiva, mas também sensibilidade e amor, e não é aborrecida. O seu teor emocionar e a expressividade, por vezes, poética, tornam-na uma leitura com bom ritmo, e a jovem adolescente é uma figura fascinante, devido à sua inteligência, rebeldia e sagacidade. Contudo, ficou aquém das minhas expectativas.

Talvez devesse reler esta obra, que consagrou a autora como uma referência da literatura francesa do século XX, mas, para já, fica a certeza de se tratar de um livro com dualidades, com tanto de belo como de desorientador.

O Amante de Marguerite Duras

Luísa Costa Gomez e Maria da Piedade Ferreira, Difel (edição Biblioteca Sábado, 2008) 

 

Até Breve!

Publicado por Fábio J. às 16:20

Oi,eu escrevo e gostaria que você desse uma passada no meu blog(www.minhasedicoes.blogspot.com)  (http://www.minhasedicoes.blogspot.com)  para)para dar uma lidinha em uma parte dos meu livros...
       Obrigada pela atenção!

 
Lelly a 30 de Agosto de 2010 às 18:52

Passarei :)
Fábio J. a 2 de Setembro de 2010 às 22:05


Mais um livro especial.
E concordo contigo quando li deixou-me perplexa.
Talvez o devesse ler novamente...
Joshua a 14 de Outubro de 2010 às 17:41

Lá especial é. O modo como a narrativa se organiza não é ortodoxa, muito pelo contrário: é singular. E depois o enredo é tão franco que, por vezes, até incomoda.

Gostava de o reler. Estou convencido que gostaria muito mais numa segunda vez.
Fábio J. a 8 de Março de 2011 às 19:14

Aconselho a ver o filme!
Não li o livro mas numa aula sobre escritores franceses a professora mostrou-nos o filme!
Fiquei um bocado chocada pela ideia da criança e do Homem mas é bom filme!
Diana a 31 de Dezembro de 2010 às 02:49

Olá ,eu li nesta ferias um livro muito especial ; A CABANA. E atraz nas indicações estava no topo da lista  O AMANTE, minha melhor amiga esta terminhando de ler.. e pelo seu resumo o livro deve ser otimo!! Adoro seu blog, e se voce nao leu ,leia A CABANA, e se leu indique!!! Acredite este livro transforma nossas vidas ,e otimo para ser lido !  Beijão; Giovanna Hadas CRUZEIRO DO OESTE PR.
Anónimo a 20 de Janeiro de 2011 às 13:13

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