Setembro 30 2010

No século XIV, havia uma abadia beneditina nos Alpes italianos. Erguia-se no topo de um monte, protegida por altas muralhas que se confundiam com as rochas, e acolhia uma grande comunidade de monges e servos. As suas relíquias e história eram admiradas em toda a península itálica, mas era a sua biblioteca, a maior da cristandade, capaz de rivalizar com a da Alexandria, o que a distinguia das demais abadias. O extenso catálogo debruçava-se não só sobre as obras religiosas mas, também, sobre as que atentavam contra a fé cristã, já que a mentira deveria ser igualmente estudada, por quem a compreendesse. Dada essa limitação, poucos podiam passear-se por entre as estantes e, entre os monges, dizia-se até que demónios e fantasmas guardavam os livros, durante a noite. Houve, porém, quem não resistisse à tentação do conhecimento. Pelo menos, é isso que Umberto Eco nos conta em O Nome da Rosa.

O narrador deste extenso e denso romance é Adso de Melk, um monge beneditino que, já velho, recorda a grande aventura da sua juventude. Na época dos acontecimentos narrados, Adso era ainda um noviço, e percorria a Itália na companhia de frei Guilherme de Barskerville, antigo inquisidor britânico. Ambos acorrem àquela abadia beneditina quando frei Guilherme é chamado a esclarecer a estranha morte de um monge miniaturista. Recorrendo a uma filosofia racional, Guilherme tenta achar as provas científicas que determinem a causa daquela morte. No entanto, outros mistérios e tragédias sucedem-se, e cedo o monge e o seu pupilo percebem que há algo terrível naquela abadia, em especial na sua biblioteca.

A narrativa, um misto de histórico e policial, decorre no apogeu das perseguições pela Inquisição, a qual tentava, a todo o custo, reprimir as diversas doutrinas e seitas hostis ao Papa, eliminando qualquer herege. Frei Guilherme, porém, não busca simplesmente um culpado, busca a verdade, é essa filosofia pessoal, que é também o reflexo da dicotomia medieval entre fé e racionalidade, a motriz da obra. O monge terá de recorrer a toda a sua sagacidade para desvendar o mistério, interligando relatos, histórias e uma aparente sequência apocalíptica. Tudo isto torna o romance dinâmico e despertou a minha atenção e curiosidade, sobretudo porque, por vezes, a obra é ainda mais labiríntica para nós, leitores, do que para Guilherme e Adso.

A componente histórica é desenvolvida com profundidade, dando a conhecer os conflitos e debates da época, o que é, sem dúvida, uma componente enriquecedora. No entanto, associada às ricas descrições, funciona, por vezes, como um obstáculo à acção. Na verdade, tanto para o leitor quanto para os protagonistas, a conjuntura social e a multiplicidade de histórias que se cruzam em torno dos mistérios desta obra tornam-na incrivelmente complexa. E mesmo que por vezes pareça haver uma sequência quase previsível de alguns acontecimentos, o facto é que é difícil distinguir qualquer linearidade. Por outras palavras, tudo é denso e complicado, ainda que, no final, tudo seja claro.

Em consonância com isso estão as personagens desta obra, que formam um mosaico muito interessante, e nele destaca-se o narrador, um homem que não esconde os seus dilemas e dúvidas. Algumas das atitudes dos monges (mesmo, ou sobretudo, quando são malvadas) chegam a ser engraçadas, e as discussões religiosas, políticas e filosóficas são cativantes, mesmo quando grande parte do que discutem seja quase indecifrável.

Por sua vez, a linguagem do narrador é adequada à época, mas sem exageros. Fui obrigado a recorrer algumas vezes ao dicionário, e a maioria das conversas e referências em latim ficaram por desvendar. Ainda assim, é um livro acessível. A estrutura frásica é outro aspecto que contribui para a ambientação da história, e a meu ver dá um toque muitíssimo atractivo à obra.

Não se trata, portanto, de uma leitura comum e leve. Contudo, à excepção de algumas conversas sobre as seitas e heresias da época, a obra é marcada por um bom ritmo e por uma sequência de episódios inesperados ou emocionantes, com acção e muita perspicácia.

A biblioteca e o conhecimento que reserva são, por último, a figura central deste livro, e o riso é a razão de desconfianças, mortes e destruição, num final ironicamente apocalíptico, no qual a razão supera, ingloriamente, as crenças.

Assim sendo, trata-se de um romance exigente, construído com mestria e bem-sucedido em múltiplos aspectos, nomeadamente na interacção com o leitor. É, sem dúvida, um clássico moderno que gostaria de reler e que recomendo.

 

O Nome da Rosa de Umberto Eco

Maria Celeste Pinto, Difel (edição Biblioteca Sábado, 2009)

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 19:09

Foi um dos livros que mais gostei de ler há uns anos atrás.
Recomendo vivamente.
É bem melhor do que o filme.
:-)
Joshua a 14 de Outubro de 2010 às 17:38

Este livro é realmente muito bom. É um clássico, arriscaria dizer.

Eu espero vir ainda a ver o filme porque adorava ver como adaptaram a complexidade do enredo para o grande ecrã.
Fábio J. a 8 de Março de 2011 às 19:04

É uma boa ideia de leitura. Só vi o filme e gostei.
O livro é capaz de ser bem melhor!
olharovazio a 5 de Novembro de 2010 às 22:05

Para quem quer saborear todos os pormenores e usar a imaginação, não há nada como ler. E se já gostaste do filme, então é um bom princípio.

É um livro complexo, mas penso que vale bem a pena.
Fábio J. a 8 de Março de 2011 às 19:24

Tenho em casa o filme em DVD. 


Realmente, é muito bom. Gostei e já assisti umas 5 vezes.


Pretendo adquirir o livro, que sempre tem mais detalhes.
Rodrigo a 5 de Novembro de 2010 às 23:16

Mais detalhes sem dúvida que terá. Não vi o filme, mas arriscaria dizer que não lhe ficará a dever no suspense.

Agora tenho mesmo de ver o filme...
Fábio J. a 8 de Março de 2011 às 19:28


Olá :)
Estive a ver o teu blogue e adorei as tuas criticas literárias, e queria convidar-te a envia-las para literatura@dmagia.net, porque todas as semanas se oferece livros às melhores criticas.
Visita o blogue: www.dmagia.blogspot.com.
Espero que gostes.
Marta Castro a 27 de Novembro de 2010 às 04:19

Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou estudando Português, eu não consigo entender tudo, mas quase! ;)
metro madrid a 11 de Janeiro de 2011 às 16:37

elogios para as fotos, lindo! Eu sempre vi a fotografia como arte mais do que capaz de captar todas as emoções e todos os momentos
il pene a 14 de Janeiro de 2011 às 10:32

o livro deve ser otimo mesmo!!! pelo resumo que esta nesta pagina da para perceber que e uma longa historia, com muita filosofia e invertigação.
Anónimo a 20 de Janeiro de 2011 às 13:04

pessoal também gostei muito...
Meu livro...
Comentem... Sigamam -me
http://quandonaosepoderespirar-marte.blogspot.com (http://quandonaosepoderespirar-marte.blogspot.com)
Deusnir Portela a 4 de Fevereiro de 2011 às 17:25


Caros amigos
        Lancei no Clube dos Autores recentemente um Livro de ficção científica  "A NEBLINA" que gostaria muito que fosse criticado nesse blog. São város contos. Como devo fazer? Ele está no site abaixo
http://clubedeautores.com.br (http://clubedeautores.com.br)
JOSÉ FRAJTAG a 25 de Fevereiro de 2011 às 14:24

 É uma obra belíssima, nos faz vivenciar a atmosfera medieval, os conflitos que marcavam a época (teológicos, filosóficos, políticos e sexuais). O livro nos mostra uma Igreja tal como ela se apresenta: santa e pecadora. No livro vemos como o conhecimento era monopólio de poucos (o que garantia o status quo), vemos construções teológicas complexas que, no fim das contas, buscam desviar a religiosidade da mensagem essencial do cristianismo (desapego e humildade). Vemos a brutalidade "benevolente" da inquisição. No livro também vemos a hipocrisia e corrupção do clero (desvios de ordem sexual, homossexualismo, assassinatos), a opressão dos humildes (ignorantes, respondendo com violência a seus anseios, vítimas do sistema). Mas há também um retrato dos verdadeiramente vocacionados (um exemplo disso são os protagonistas Adso e Guilerme, além do baixo clero, das correntes teológicas ditas "hereges").  A tudo isso juntamos, como pano de fundo, a investigação dos assassinatos ocorridos na abadia e as dúvidas vocacionais e sexuais do jovem beneditino Adso (dúvias que nos remontam ao período barroco: carne x espírito, céu x inferno etc.). Enfim, um clássico, nada que lembre certos fast foods culturais, best-sellers pseudo eruditos de Dan Brown e companhia. O Nome da Rosa é para quem não tem preguiça de pensar. Não é maniqueísta, simplista. Leia e tire suas conclusões sobre a Igreja da época e seu contexto histórico (Idade Média).     
Leonardo da Costa Sapata a 26 de Abril de 2011 às 21:14

Concordo com a maioria do que disse, mas não subscrevo a íntegra.
Eu li a obra com muito gosto, mas interpretei-a de um modo, em parte, diferente (como seria de esperar). É verdade que todo o contexto social nos é descrito com base naquilo que era a Igreja da época, o seu poder, a sua ideologia, o seu claro maniqueísmo. Mas não me parece que Umberto Eco tenha criado esta obra para nos mostrar isso, até porque haveria formas muito adequadas para o fazer. Este é um livro sobre a racionalidade e sobre o modo como esta deve (e pode) imperar mesmo quando as circunstâncias são as mais difíceis. É também um livro sobre a ética e a sua corrupção. O modo como o autor o fez, no contexto em que o fez, foi mera opção. Opção certamente basilar na construção do enredo, mas ainda assim marginal no que toca ao seu cerne e mensagem.
Não estou com isto a querer dizer que as discussões ideológicas e a discrição da sociedade medieval são mero artifício! Pelo contrário, são o corpo da obra e é disso que retiramos o prazer imediato da leitura. É isso que lemos. É isso que vivenciamos e nos faz pensar e acompanhar a narrativa página após página. Contudo, eu prefiro concentrar a minha atenção no sumo e no seu sabor, e não tanto no fantástico e elaborado copo de cristal. Mas, pelo que agora li, percebo que nem sempre um livro é exprimido da mesma maneira.

O Nome da Rosa não é para quem tem preguiça de pensar. Concordo. Mas Dan Brown também não o é. Nenhum livro (pelo menos algo que mereça tal nome) é para quem tem preguiça de pensar. Porque só não descuidando a minha atenção posso afirmar que um livro é óptimo ou péssimo. De outro modo, uma crítica não tem valor nem faz sentido.

Obrigado pela visita e pelo comentário aberto à discussão :)
Boas Leituras!
Fábio J. a 26 de Abril de 2011 às 22:39

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