Março 21 2007

Quarta-feira. O último dia com responsabilidades escolares do período. Uma sensação óptima.

Tal como já devem, de algum modo, ter notado, hoje começa a Primavera, a estação do amor, do renascimento, da alegria... enfim, de tudo aquilo que é positivo. Mas hoje é também uma data assinalável no mundo literário. Talvez por ser um dia no qual se venera o puro e o belo, hoje é também comemorado o Dia Mundial da Poesia, essa profunda e especial forma de usar as palavras, de transmitir sentimentos.

Instituído na 30ª Conferência Geral da UNESCO, em 1999, o Dia Mundial da Poesia resultou da constatação de que existiam no mundo necessidades estéticas por satisfazer e de que a poesia podia preenchê-las. E têm razão.

Existirá género mais íntimo que a poesia? Haverão palavras mais belas que as da poesia? E encontrar-se-ão mensagens mais harmoniosas que as da poesia? Talvez não, pois a poesia, com toda a sua subjectividade, chega ao coração do leitor sem ultrapassar barreiras e sem ser travada.

Para além disso, a matéria-prima do poeta é a palavra e, assim como o escultor extrai a forma de um bloco, o escritor tem toda a liberdade para manipular as palavras, mesmo que isso implique romper ideias preconcebidas e normas inquestionáveis.

Na lírica, cada verso é um fôlego dado na travessia dum oceano, oceano esse que contamina todo o ser e o transforma, levando-o para um lugar onde nem corpo nem mente são concretos e para onde as ondas das palavras chocam com a praia mais surreal, mais incrível ou mais terrível.

Dor e prazer, amor e ódio, luz e trevas. Cada estrofe é a montanha que segura o céu e nos tapa o horizonte, só para depois o vir mostrar, com espantosa perfeição.

A poesia não se lê sentado, não se lê de pé. Não se lê acordado, nem se lê a dormir. A poesia lê-se a flutuar e a divagar, tal como uma folha solta ao vento e que é levada por onde o destino a quer levar.

Tal como dizia Pessoa, “o poeta é um fingidor”, e é por ser assim que podemos acreditar no que diz, pois só a fingir se consegue dizer tudo aquilo que se sente, tudo aquilo que nos preenche o âmago.

Tal como já disse não ocupo muito tempo a ler poesia. Leio mais quando sinto necessidade, quando preciso. Pois tal como a água apaga a sede do homem, a poesia apaga a sede do humano, e quem dela não beber sentirá sede e cairá...

Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. Eugénio de Andrade

Boas poesias.

Publicado por Fábio J. às 19:50

Março 19 2007

Falta pouco para estar mesmo livre, sem obrigações. A tarde de hoje foi passada a pesquisar sobre O Silmarillion e Tolkien, uma vez que amanhã é chegado o dia das análises literárias, para a disciplina de português. Como já era de esperar, alguns dos meus colegas ainda não tinham, hoje de manhã, acabado, ou mesmo começado, a leitura das obras eleitas.

Eu esperava encontrar os dados biobibliográficos de Tolkien com muita facilidade, mas isso não aconteceu, uma vez que a maioria dos sites não faz uma catalogação das obras de forma completa. Felizmente também já tenho (várias) notas de opinião sobre a obra tiradas, adivinhem lá, deste blog.

E se são vários os comentários sobre O Silmarillion, os sobre Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média também existem. E este post completará mais estes comentários pois, finalmente, depois de um mês de leituras fragmentadas, incompletas e com olhos meios fechados, acabei de ler este livro.

Tal como no primeiro, em Contos Inacabados encontramos histórias das três Eras da mitologia tolkiana. Contudo, enquanto que n’O Silmarillion a narrativa é praticamente contínua e existe uma coerência temporal (mesmo com os diferentes cinco contos que contem), nesta última obra essa linearidade não existe, e os 14 textos apresentados são totalmente independentes.

Muitos destes textos são, como disse inicialmente, incompletos, adaptados ou simplesmente ensaios; e mesmo com a preocupação de Christopher Tolkien em organizar e estruturar a obra para que houvesse uma distinção entre autor e compilador, nem sempre a narrativa foi facilmente interpretada.

Uma das consequências do facto deste livro ser constituído por ensaios é a existência de inúmeras notas. Por vezes, existe uma nota por parágrafo (!), o que me obrigou a repetidas pausas na narrativa. O facto de existir também uma verdadeira demanda a nível da explicação, por parte de Christopher, de dados etimológicos ou históricos dá à narrativa um aspecto, também, menos artístico.

A obra de Tolkien pode até ser associada a elfos e outros seres, mas as histórias de que mais gostei tratavam das relações e das histórias dos homens. Talvez seja porque os homens, tão menores que os elfos em tantos aspectos, se revelem, muitas vezes, mais fortes e corajosos de espírito. Saliento ambas as história da Primeira Era, sobre Tuor e Túrin respectivamente, e também as da Terceira no que toca às relações entre Gondor e Rohan e aos acontecimentos precedentes da Guerra do Anel.

Um novo “achado” nesta obra foi a existência dos Drúedain, um povo com características entre hobbit e anão, embora bastante complexo e pouco conhecido na Terra Média. Histórias como a chegada dos Istari à Terra Média, dos quais Gandalf pertencia, ou a de Aldarion e Erendis de Númenor são também complementos muito interessantes e que contribuíram para a boa apreciação desta obra, embora esta segunda me tenha “enervado” em certas alturas, devido às atitudes das personagens.

Em suma posso afirmar que os contos são um óptimo complemento à obra do mestre, embora seja o livro, no seu conjunto, uma obra pouco articulada e coesa. Se me permitem um conselho, não leiam esta obra sem terem um conhecimento geral de todo o mundo tolkiano, pois estes “contos inacabados” são um aprofundar e não uma introdução.

Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média de J.R.R. Tolkien

Mesmo assim é um bom livro.

Boa semana e Boas aventuras literárias!

Publicado por Fábio J. às 21:49

Março 17 2007

Finalmente esta semana chega ao fim. Foi cansativa, muito ocupada e má em leituras, mas chegou ao fim. A seguir dela virá outra que se espera mais livre e bem passada.

Mas houve algo que marcou profundamente esta semana a nível literário, não fosse esse algo o mais importante galardão literário da língua portuguesa, no valor de 100 mil euros, o Prémio Camões. Este prémio, criado em 1988 pelos governos de Portugal e Brasil para estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos e valorizar o património literário e cultural da língua portuguesa, foi na quarta-feira passada atribuído a António Lobo Antunes, um dos mais importantes e reconhecidos internacionalmente escritores portugueses.

Anunciado no Rio de Janeiro, esta distinção dum júri de dois portugueses, dois brasileiros, um moçambicano e um angolano, foi amplamente classificado como “mais que justa”, “natural” e “merecida pela obra notável”.

Este médico psiquiatra, de 64 anos, é um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo e um eterno “nobelizádo”. Possuidor duma escrita variada, Lobo Antunes apresenta livros obsessivos e labirínticos, concedendo um tom geral de complexidade e “paranóia” às suas obras.

A sua última obra publicada, Ontem não te vi em Babilónia, é o seu 18º romance dum total de 26 títulos publicados e traduzidos em 16 línguas. António Lobo Antunes recebeu, ao longo de 28 anos de carreira literária, distinções como o Prémio Internacional União Latina (2003), Prémio France-Culture (1996 e 1997), Prémio Tradução Portugal/Frankfurt (1997), Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1985 e 1999), Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco (2000), entre muitos outros.

Com este prémio é esperada uma maior atenção por parte da crítica e do público internacional ao autor, dado que esta distinção tem ampla notabilidade internacional.

Nunca li o autor, mas esta distinção despertou em mim alguma curiosidade em relação à sua obra. Espero que o mesmo tenha acontecido com os visitantes do blog. Deixo aqui um site, não oficial, sobre o autor para os curiosos.

 

*

Bom fim-de-semana e Boas Leituras!!!

Publicado por Fábio J. às 19:42

Março 11 2007

Para começar tenho de pedir desculpas por não ter “comemorado” a semana que passou, tal como prometi. Era “A Semana da Leitura 2007” e tencionava assinala-la, mas não foi possível. Mesmo assim espero que, de alguma forma, tenham celebrado a esta semana, quanto mais não seja pela leitura dum livro. Foram feitas algumas iniciativas, principalmente nas escolas, como feiras do livro e outras actividades relacionadas com esta arte.

Não pude fazer o que queria aqui no blog, mas consegui aproveitar algumas “promoções”: uma delas, e penso que não relacionada com a semana, foi a compra dos dois primeiros volumes do Senhor dos Anéis, na Fnac, a metade do preço (10 € cada um). Depois disso, e por pura coincidência, encontrei nos “restos” da feira do livro da minha escola “O Legado de Hastur” de Marion Zimmer Bradley. Comprei-o por 2€ quando o preço habitual é de 18€. Acho que foi uma semana “rentável”...

Sem dúvida que quem gosta de livros se perde com eles. Eu, pelo menos, perco-me e gosto! E para quem também gosta de se perder por entre as histórias, hoje trago até aqui um livro diferente. Talvez o primeiro livro não literário que aqui divulgo... existe sempre uma primeira vez.

Trata-se de um livro imprescindível para os amantes de literatura: um guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos. Nem mais nem menos do que 1001 Livros para Ler Antes de Morrer de Peter Boxall, algo bastante ajustado à semana que passou.

Elaborado por uma equipa internacional de escritores, críticos, académicos e jornalistas, todos eles apaixonados pela leitura, esta obra é uma selecção erudita e primorosa que proporciona novas perspectivas sobre os velhos e modernos clássicos, e indica os romances contemporâneos que serão clássicos no futuro.

Ilustrado com mais de 600 imagens a cor e embelezado com inúmeras citações de autores ou de romances, 1001 Livros para Ler Antes de Morrer é o livro ideal para amantes da literatura, a concretização dum desejo por que há tanto esperávamos.

Um magnífico e invulgar livro de referência sobre os romances e os escritores que conseguiram e conseguem estimular a imaginação do mundo, principalmente aqueles com um maior impacto, quer pela sua recepção crítica, quer pelo seu estatuto de clássico de culto.

Não é uma obra de emoções directas, como é lógico, mas pode levar-nos à descoberta de inúmeras outras que esperam pela nossa visita.

Um livro a ter em atenção!

1001 Livros para Ler Antes de Morrer de Peter Boxall

Boa semana e Boas Leituras!!!

Publicado por Fábio J. às 21:31

Março 05 2007

Ontem tive um almoço em família. Depois disso fiquei na mesa com a minha avó e acabamos a falar em religião, um dos seus temas preferidos que acaba sempre por ser o tema quando estamos juntos. Ela é totalmente crente e bastante dogmática e radical em relação a factos e histórias do catolicismo, mas gosta de discutir o assunto. Como não podia deixar de ser confrontei-a com algumas “teses” d’O Código da Vinci. Bem, depois ter sido designado como um Jeová e descrente, de quase levar a minha avó ao enfarte e de ser aconselhado a rezar, rezar muito, desisti da conversa, mas não sem antes tranquiliza-la com ”Não se preocupe, isto é só um romance, tudo invenção”.

Não lhe cheguei a sugerir que lesse o livro pois pouco o apreciaria uma vez que o acharia uma heresia. Não que não fosse gostar do romance em si, mas neste caso acho que o fundo histórico taparia a narrativa, e a parte artística perder-se-ia.

Sim, pois eu acho que a leitura, ou duma forma mais correcta, a literatura é uma forma de arte e consequentemente os escritores são artistas. Qualquer obra de arte tenta transmitir uma mensagem. Tenta fazer com que quem a aprecie sinta algo, concreto ou não, e que mesmo inexplicavelmente goste ou deteste, ame ou odeie, pois no fundo o importante é despertar sensações, reacções...

Os livros, com as suas palavras laboriosamente seleccionadas e relacionadas, causadoras de tantas sensações e sentimentos, e geradoras de inúmeras interpretações, são para mim uma expressão de arte, uma arte que se cultiva durante a leitura e que só tem sentido com esta.

Mas servem também de companhia naqueles dias de insónias ou aborrecimento. Quando se está só, ou a companhia nos faz sentir isso, e tudo que queremos é divagar e descontrair, nada há melhor do que se deleitar com uma boa história. Fazem-nos passar bons momentos pois, com todas aquelas sensações e descobertas, mistérios que nos deixam curiosos, relatos tocantes ou enredos impressionantes tudo esquecemos. É uma boa maneira de aproveitar o tempo, sem dúvida (para quem gosta).

Mas as perspectivas podem ser outras e, para além da parte erudita ou “desportiva” dum livro, há também quem se debruce sobre a sua parte mais útil, mais proveitosa como pensam alguns. É que um livro é sempre (ou devia ser) uma grande fonte de conhecimento. Foi-o durante séculos, mas mesmo agora é muito aquilo que, sob a forma de retrato da realidade seja sob fruto da imaginação do artista, é apresentado ao leitor e o completa, pois os livros completam-nos, cada um da sua forma, mas completam.

Existe sempre a possibilidade de pura e simplesmente não se querer deixar absorver pela leitura, talvez com medo das sensações, talvez com medo do complemento, mas justificadamente porque não se gosta...

O livro pode ser visto sobre muitas perspectivas mas o importante é ler. Se já o faz continue, caso contrário esta semana é uma boa altura para o começar a fazer.

__________________________________

Para mim, a leitura é...

 

29.85% arte
35.82% entretenimento
31.34% conhecimento
2.98% algo desinteressante

 

Total: 67 respostas

Boa semana e Boas Leituras!!!

Publicado por Fábio J. às 21:42

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