Agosto 14 2010

Philip Roth está entre os grandes escritores norte-americanos dos nossos dias e, depois de ter lido A Mancha Humana, obra de referência publicada em 2001, penso compreender porquê. A par de um enredo cativante e de histórias ricamente entrelaçadas está um estilo magnífico e inconfundível. O suceder de personagens, narradores e perspectivas e a capacidade singular de descrever cada homem e cada mulher sem subterfúgios, aceitando as suas falhas e vergonhas sem reservas, surpreendeu-me mais do que pensava ser possível. Para além disso, há nesta obra uma ética disciplinadora e a preocupação em discutir a complexidade do Homem indivíduo e do Homem social. Por outras palavras, trata-se duma excelente leitura.

A própria história merece atenção: no Verão de 98, a América mostra-se sôfrega por censurar e punir o presidente Clinton, que traiu a esposa e o país. Esta “indignação hipócrita” serve de mote à estória de Coleman Silk, um velho professor universitário que vê a sua carreira arruinada após proferir uma palavra ambígua no momento errado. Esse instante terá consequências devastadoras na sua vida e na dos que o rodeiam.

Um deles é o escritor Nathan Zuckerman, arrastado para a história pela sede de vingança de Coleman. Acabou por tornar-se seu amigo, e é ele, alter ego do próprio Roth, quem nos guia pela narrativa e nos vai apresentando os velhos e determinantes segredos do verdadeiro Coleman Silk, um homem capaz de esconder as suas origens para criar a sua própria realidade.

Os segredos são, por si só, um dos temas da obra. Todos os temos, e é fascinante assistir ao iluminar de cada memória escondida das personagens: para além de Silk, existem outros homens e mulheres que nos são revelados, com franqueza e profundidade. Essas memórias permitem-nos construir a verdadeira identidade de cada um deles, a par daquela que nos é inicialmente descrita. Há neste livro esse cuidado: o cuidado de colocar ao mesmo nível as múltiplas identidades que cada um de nós transporta, seja aquela que nos corre nas veias, a que diariamente tentamos construir, a outra que todos os que nos rodeiam observam ou a verdadeira identidade, demasiado complexa para ser inteiramente compreendida. Com isto se adivinha a qualidade das personagens, tão reais quanto a própria vida.

Graças a essa vertente, a narração facilmente é entregue a essas pessoas, que nos relatam as suas próprias histórias e perspectivas, mas sem nunca nos fazer esquecer a acção principal, antes completando-a e elucidando-a. Isso torna a obra cativante, sem monotonias ou aborrecimentos. Não é que seja perfeita, mas tenho pouco de negativo a apontar.

É contemporânea e actual, e debruça-se sobre aquilo que está para além da mancha humana: os segredos e a tensão das revelações, o desejo e a vontade de arriscar, a certeza de que não existem os bons e os maus, apenas a vida humana em diferentes perspectivas. Uma obra completíssima que, sem dúvida, recomendo.

A Mancha Humana de Philip Roth

Fernanda Pinto Rodrigues, Dom Quixote (edição Biblioteca Sábado, 2008)

Os segredos que Coleman Silk escondeu até à morte foram adaptados ao grande ecrã em 2003, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman nos papéis principais. Espero poder vê-lo em breve…

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 23:10

Julho 14 2010

Escrito há mais de 40 anos, A Mão Esquerda das Trevas continua a ser a obra mais famosa de Ursula Le Guin. Venceu os prémios Nebula (1969) e Hugo (1970) e, ainda hoje, é relida e analisada, estando entre os grandes títulos de ficção científica.

Eu já havia lido as cinco narrativas do ciclo de fantasia Terramar, mas nem elas diminuíram a sensação de primeiro encontro com este novo livro. O tom, as descrições, a profundidade, os temas e, claro, a história, são muito diferentes, embora existam lugares-comuns como parte da essência da autora.

Nesta obra, a narrativa poética da fantasia dá lugar a descrições objectivas e menos ornamentadas. Há, portanto, maior simplicidade no estilo e na história o que, no meu caso, conduziu a uma leitura não tão estimulante quanto espectável. Apesar disso, o tema e a abordagem crítica e atenta da autora, expressa pelas personagens, valem por si e a obra acaba por se revelar cativante e inquietante, ainda que nem sempre totalmente convincente.

Este livro apresenta três tipos de capítulos. Num deles, são-nos narrados os desafios que Genly Ai enfrenta em Gethen, um planeta gelado para onde foi enviado. A sua missão é estabelecer um acordo com as nações daquele estranho mundo, incentivando-as a associarem-se à federação interestelar Ecuménio. A tarefa é clara, mas nem por isso simples, e tudo se complica quando Genly se torna um peão na ancestral luta entre Karhide e Orgoreyn, as duas grandes nações de Inverno, o planeta assim apelidado por razões óbvias. A certa altura, este homem alienígena vê-se envolvido num perigoso jogo de corte e política, um jogo de traições. E é um torno da traição e do traidor que muita da acção se desenvolve, permitindo também ao leitor reflectir sobre o assunto.

Quem o arrasta para essa situação preocupante é Estraven, um governante local, atento e patriota. Os excertos do seu diário constituem alguns dos capítulos e permitem-nos compreender melhor, mas não satisfatoriamente, a sua personalidade e a cultura do seu povo. São, também, o registo da longa jornada de fuga que as duas personagens fazem por um longo glaciar, no qual as tempestades, a brancura e a luz se tornam a mão esquerda das trevas, desafiando as suas resistências. No entanto, as mesmas dificuldades acabam por os aproximar, e foi deveras interessante acompanhar o modo como a relação entre eles evoluiu ao longo da obra, até terminar numa comovente prova de amizade, de amor e de confiança.

Para além da acção em torno da missão e peripécias de Genly, a autora presenteou-nos com pequenas histórias, mitos, lendas ou análises daquele mundo tão diferente, com humanos tão diferentes, todas elas admiráveis. Estas permitem-nos conhecer melhor aquele mundo e o modo como as suas particularidades o tornam especial. Talvez o ponto fucral da obra seja algo ainda por referir: o hermafroditismo dos gethenianos. Naquele mundo, todos os indivíduos vivem num estado assexual durante a maior parte do tempo. Apenas quando atingem o kemmer, o estado de capacidade sexual, adquirem características marcadamente femininas ou masculinas, podendo ser, cada um deles, mãe e pai de diferentes crianças. É o grande tópico criativo da obra e aquele que a leva a ser considerada uma referência na ficção científica feminista. Genly acaba por ser o único homem descrito ao longo da obra. Todas as outras principais personagens são andróginas, o que as torna particularmente fascinantes. O modo como os traços femininos se insinuam por entre os masculinos, o modo como a sociedade se organizou com base numa característica que torna todos os Homens iguais, onde todos partilham a mesma perspectiva e as oportunidades, tudo isso faz desta obra um ensaio incrível. Quando lemos “o rei está grávido”, sabemos que nos deparamos com algo promissor.

Gostei da história, gostei do que li. Alguns dos pormenores mais “científicos” pareceram-me um pouco artificiais, mas tudo se enquadra harmoniosamente, graças à mestria de Le Guin. Comparada com outras das suas obras, esta pareceu-me mais insípida, como já referi, mas adorei as ideias – e as fantásticas personagens - e fiquei como uma nova percepção deste género literário. Espero, inclusivamente, ler outros livros sobre o Ecuménio, em breve.

Mais uma prova da grande criatividade da autora.

 A Mão Esquerda das Trevas de Ursula K. Le Guin

  Fátima Andrade, Editorial Presença, 2003

Até Breve!

Publicado por Fábio J. às 15:51

Junho 04 2010

Comecei a ler Memória de Elefante há quase um mês, mas parei no quarto ou quinto capítulo, não sei bem porquê. O livro ficou na cabeceira, sossegado, até que ontem o (re)li do início ao fim. Trata-se da obra de estreia de António Lobo Antunes, certamente um dos autores de referência na literatura portuguesa contemporânea.

A obra é incomum, não é fácil e exige atenção e dedicação a cada frase. Por um lado, há a narrativa de um homem sufocado pela própria existência. Por outro, há o estilo denso e invulgar do autor. E no meio há o carácter autobiográfico da obra, perturbador.

Tudo se passa em torno do psiquiatra, um homem de meia-idade, pai, divorciado e solitário, mergulhado numa crise existencial simplesmente por ser quem é. Ao longo do dia que ele, ou o outro ele, nos narra, seguimos um percurso labiríntico e quase cíclico, no qual os encontros fortuitos se tornam causa de pensamentos tortuosos e os pensamentos se tornam justificação para lembranças desejadas. Este homem busca as causas para o que é, para onde está, sem nunca concretizar expectativas credíveis, e para isso recorre a uma involuntária conjugação de tempos e realidades, numa espécie de evasão ao passado idealístico e vaticinador do presente.

É egoísta, não se cansa de o afirmar. Mesmo querendo lutar para mudar, sabe-se cobarde, incapaz de agir e de buscar aqueles que o amam para lhes dizer que também os ama. Quando é que eu me fodi? A pergunta leva-o à infância familiar, à juventude clandestina, à África bélica, ao passado de felicidade inconsciente, procurando o que mudara e perdera.

Esta estória de um só dia, que é a história de uma vida, é uma descrição artística dum mundo pessoal, paradoxo meramente linguístico e profundamente real. O autor apresenta uma diversidade linguística notável e uma narrativa irrealisticamente metafórica, que tanto me impressionou como cansou, tanto me agradou como exasperou.

Mais uma vez, não é um livro fácil e não me parece que Lobo Antunes seja um autor fácil. Mas é sincero, sem limitações ou habilidades fingidas, o que o torna um desafio bem-vindo. Verdade seja dita: não é um dos meus livros favoritos. Ainda assim, é difícil não reconhecer o valor de uma obra como esta.

Nas últimas páginas, o psiquiatra tem a certeza ou a vontade ou a ilusão de seguir em frente e atingir a existência enquanto homem. Resta saber se a sua memória cáustica, que o salva só para o manter em sofrimento, o permitirá começar uma vida menos amarga.

 

Memória de Elefante de António Lobo Antunes

Dom Quixote, 1979 (ed. 2004)

Publicado por Fábio J. às 23:14

Maio 16 2010

Alheios às inúmeras discussões sobre o Fantástico nacional, vários autores portugueses continuam a escrever e a publicar obras daquele género. Sandra Carvalho é um deles. Há mais de cinco anos, deu início à Saga das Pedras Mágicas e conquistou os seus leitores com as aventuras e o amor de Catelyn e Throst. Com a sucessão dos volumes, sucederam-se as gerações e surgiram novos protagonistas, novo enredo e novas lutas, mudanças que nem sempre me agradaram.

No quinto volume, Os Três Reinos, Edwina mantém-se heroína e narradora da história. Mais uma vez, é difícil resumir o seu percurso, dada a ausência de uma linha consistente que oriente a acção. As pedras mágicas têm cada vez menos importância, as profecias tornaram-se banais e até as relações familiares perderam a complexidade que outrora envolvia o leitor. Mesmo assim, este é um volume de resoluções e muito sucede. Finalmente, profecias são cumpridas e inimigos derrotados, casais unem-se e celebram o seu amor, velhas histórias terminam e respostas são dadas. Por tudo isso, aplaudo a autora.

Há ainda um outro aspecto que devo destacar: a magia. Se nos volumes anteriores a magia, suposto ponto central da história, era muitíssimo limitada e estava quase restringida aos malfeitores, neste volume já é possível assistir ao uso completo dos encantamentos e feitiços por parte dos heróis. Este pormenor torna as batalhas mais cativantes e menos previsíveis, para além de gerar imagens fascinantes.

De certo modo, este é um volume mais simples do que os anteriores, sem elementos que perturbem a narrativa principal, mas continua bastante prolífero. A criatividade da autora conjuga-se com elementos históricos, mas de um modo que torna a história pouco credível. Ainda assim, as personagens apaixonantes e o estilo envolvente com os quais a autora já habituou os seus leitores, fazem deste um livro aprazível e cativante que lamentei terminar.

Há uma nova geração de personagens que se prepara para assumir o protagonismo, uma série de profecias que terão de ser cumpridas ou evitadas e muitas batalhas que decidirão o rumo dos povos da Terra. No entanto, confesso não ter conseguido definir expectativas concretas, devido à grande fluidez do enredo. Apenas antevejo momentos decisivos e sombrios narrados com a paixão característica de Sandra Carvalho.

O sexto volume, A Sacerdotisa dos Penhascos, já espera na estante. O sétimo e último será publicado, pelo que consta, em meados de 2011. A curiosidade é muita.

Os Três Reinos de Sandra Carvalho

Editorial Presença, 2008

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 16:53

Maio 14 2010

Depois de um livro de fantasia com quase mil páginas, procurei na minha estante um livro mais realista e mais pequeno. Peguei no Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel e, embora o livro seja menos volumoso e a história se passe no México do século XX, está polvilhado de elementos fantásticos.

O característico realismo mágico sul-americano associa-se, nesta obra, à culinária, fazendo deste um livro deveras peculiar. Em cada capítulo há uma nova receita, cada uma um novo mote da história, não fosse a confecção e a degustação dos alimentos marcadas por acontecimentos sobrenaturais que muitas vezes condicionam ou balizam as acções das personagens.

A principal é Tita, a mais nova de três irmãs. A tradição consagrou-a ao serviço da família, em especial da mãe, de quem deve cuidar na velhice. Como tal, não deve apaixonar-se e está proibida de se casar. Por isso, quando o seu amado Pedro lhe pede a mão em casamento, tudo se complica. As famílias chegam a um acordo, e Pedro acaba por casar com a irmã mais velha de Tita. Perante tão desesperante situação, a protagonista procura na cozinha um espaço de evasão, executando receitas ou tecendo feitiços, não fossem ambas as coisas tão semelhantes ou até, como nos mostra Tita, duas artes inseparáveis.

A narrativa é apresentada com modo simples e conciso, com tom animado e numa linguagem quase familiar. Tal permite uma eficaz proximidade com as personagens e os acontecimentos. As descrições não são extensas nem particularmente pormenorizadas, mas foi-me muito fácil visualizar o ambiente, em especial a cozinha, onde tanto se passa. Mesmo tendo em conta o género, os fenómenos paranormais conjugam-se muito bem com a acção e geram-se imagens de grande interesse.

No entanto, a descrição das receitas com detalhe enciclopédico quebra o ritmo da narrativa. Embora a culinária seja parte essencial da história, a não ser que se queira passar das palavras à gustação, estas passagens pareceram-me um tanto ou quanto sobre-exploradas.

Para além disso, a personagem principal e o enredo revelaram-se, em determinadas situações, previsíveis e há, em toda obra, algumas situações injustificadas, sobretudo no que toca às personagens secundárias e às poucas histórias paralelas existentes. É verdade que a novela é simples a apresenta elementos do fantástico, mas gostava de ter visto alguns aspectos mais desenvolvidos, sobretudo por curiosidade.

Ao longo da obra assistimos ao crescimento da jovem Tita e à sua luta contra tradições que merecem ser deixadas para trás. O final faz jus à narrativa e ao título, terminando de um modo tão romântico quanto apocalíptico. No fim de contas, a vida e o amor são mesmo assim, uma eterna luta em busca de um final merecido.

Um sucesso internacional de vendas que vale a pena conhecer! Eu já tenho Laura Esquivel e outros autores sul-americanos debaixo de olho…

Como Água para Chocolate de Laura Esquivel

Cristina Rodríguez, Edições ASA (edição Biblioteca Sábado, 2008)

 

Boas Leituras!

Publicado por Fábio J. às 20:57

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