Fevereiro 20 2010
O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi publicado em 1991. Trata-se de uma das mais polémicas obras de José Saramago, considerada blasfema e abusiva por alguns, os suficientes para levarem o autor ao auto-exílio. Quase vinte anos após a primeira edição, este evangelho é encarado com maior tolerância, mas o que narra continua a provocar surpresa e a gerar opiniões diversas.
Já muito se disse sobre este livro. Não sou, portanto, original, quando afirmo que narra a história e vivência de um Jesus humanizado, com defeitos e virtudes, com dúvidas e convicções, com teimosia e medo, não fosse ele um homem, filho de Deus, mas homem.
A obra começa com uma imagem da crucificação de Cristo, ou melhor, a interpretação que o autor faz dela. Assim, fica desde logo marcado o tom subversivo deste evangelho, ousado e diferente, que não começa com o nascimento, mas com a morte. Ao longo dos capítulos seguintes, Saramago apresenta-nos José e Maria, um jovem casal como quantos outros na Galileia, casados há não muito tempo e que virão a ter um primogénito chamado Jesus. A sua vida tem pouco de especial, mas sendo judeus de há dois mil anos, representam uma cultura, por si só, interessante. Contudo, é evidente que a humanização destas personagens histórias e religiosas, agora reduzidas a simples personagens literárias, constitui o ponto mais relevante da obra.
À medida que a história avança, a narrativa obriga à reflexão, impondo razão e pensamento crítico onde antes havia apenas dogmas. Falo de religião claro está, de cristianismo. No entanto, não me parece que este livro seja ofensivo. Trata-se de uma outra versão sobre a vida dum profeta, com muita ironia e bom humor, mas que não passa duma obra literária e, bem vistas as coisas, até apresenta um tom muito harmonioso.
Mas polémicas à parte, esta é mais uma fascinante obra do Nobel português. Tal como já aqui referi várias vezes, gosto de Saramago na narrativa histórica e, por isso, esta obra agradou-me muitíssimo. O autor é um excelente contador de histórias, também me canso de o dizer, e criou neste livro algumas das imagens mais extraordinárias com que já me deparei numa leitura. Não consigo deixar de destacar o encontro entre Jesus, Deus e Diabo, no centro de um mar, num pequeno barco cercado por nevoeiro. Mas há outras, várias.
Aquele Deus e aquele Diabo do barco merecem, também eles, destaque. Ambos humanizados, ambos muito próximos de Jesus, são duas personagens muito cativantes, sobretudo o Diabo, vai-se lá perceber porquê. Maria, mãe de Jesus, é outra figura de grande poder nesta obra: esposa, mãe, trabalhadora, simples mulher que muito me impressionou pela sua fé, lealdade e coragem. Mas não se esqueça Maria de Magdala e outras personagens incríveis, tenham ou não elas paralelo nos evangelhos bíblicos.
Existem, porém, alguns aspectos que me desapontaram neste romance de 445 páginas, nomeadamente o abandono de algumas histórias secundárias ou o não desenvolvimento de alguns acontecimentos com grande potencial. Talvez por ter gostado tanto do enredo, queria ter lido mais do que o que li…
Seja como for, e como está patente, aconselho este livro, por várias razões, e ainda mais algumas. Trata-se de uma histórica criativa, espirituosa, humana e inspiradora, o que, associado à escrita poderosa e estilo oralizante do autor, se traduz num livro singular.
Mal posso esperar por Caim
O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago
Editorial Caminho, 1997
Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 23:07

Fevereiro 14 2010
Nos últimos anos a Porto Editora aumentou o seu catálogo de obras literárias e publicou alguns fenómenos de vendas no nosso país. Entre eles destaca-se Dorothy Koomson, autora britânica que deu nas vistas com A filha da minha melhor amiga e que volta agora às livrarias portuguesas com O amor está no ar.
A sinopse desta história deixa muito a desejar, pois há muito mais do que lá se antevê. A protagonista deste romance é Ceri, uma jovem mulher que decide sair de Londres, onde nasceu e trabalha, e voltar para a cidade onde se formara, Leeds, em busca do bem-estar pessoal e da satisfação profissional. A mudança acaba por ser uma fuga à rotina, ao dia-a-dia que não a completa e aos problemas pessoais e amorosos, não só os seus, mas os de todos os que a rodeiam. É que Ceri tem algo, algo que transforma as pessoas em seu redor, fazendo-as abrir os seus corações e partilhar com ela os seus sentimentos e os seus segredos, obrigando-a a viver os dramas e os desgostos dos outros como se fossem seus. Graças a essa estranha característica, a tranquilidade tão almejada pode não passar de um sonho.
Há medida que o romance, narrado na primeira pessoa, avança, somos confrontados com a adaptação de Ceri a uma nova vida. Contudo, o seu fardo teima em manter-se, e a protagonista torna-se parte de múltiplas histórias amorosas. Diversas personagens, muito diversificadas mas invariavelmente marcadas pela espontaneidade e autenticidade, surgem ao longo de uma obra que se justifica com cada página. Ao invés de um enredo com desenvolvimento linear, preciso e, quiçá, previsível, neste livro em cada capítulo surgem novas e inesperadas situações.
Mesmo com alguns momentos comoventes, parece-me que esta é uma história divertida. Tal deve-se, sobretudo, ao modo como a protagonista interpreta o que a rodeia. Ceri é, note-se, uma personagem complexa e suficientemente forte para suportar todo o romance. Graças a ela, temos uma história diferente.
Não se trata de mais uma história de amor. É antes uma narrativa ligeira, divertida e, por acaso, romântica, uma história sobre amor, ou, melhor ainda, uma história sobre uma jovem mulher com o dom e o fardo de despertar e amplificar os sentimentos que movem os que a rodeiam. “Será ela o Cupido dos tempos modernos?”, lê-se na sinopse. A resposta é interessante, de várias perspectivas, e constitui um dos pormenores mais discutíveis na obra. No entanto, seja como for, este livro fez-me pensar nos meus objectivos pessoais e no que realmente quero, qual espelho da protagonista, e, por isso, constitui uma leitura mais do que satisfatória.
Em suma, O amor está no ar consegue um lugar especial dentro do género, ao distanciar-se da tradicional história de amor, ou mesmo da própria escrita feminina, e ao impor-se como obra cativante, multivalente e promotora da reflexão. Representa um meio-termo repleto de virtudes que merece ser lido, quanto mais não seja porque tem tudo para agradar a um público diverso.
Quanto a mim, fica a satisfação e a vontade de conhecer melhor uma autora que, até há pouco, não me havia despertado interesse. A leitura tem destas coisas…
Leituras Apaixonantes!
O Amor está no Ar de Dorothy Koomson
Vera Falcão Martins, Porto Editora, 2010
Links: Dorothy Koomson
Publicado por Fábio J. às 16:27

Fevereiro 01 2010
Antes de dar a conhecer os livros de 2009, segundo os internautas que participaram na Iniciativa Livros do ano, deixo aqui um pouco de informação sobre um livro português, publicado em finais de 2009; porque vale sempre a pena destacar aquelas obras portuguesas que têm tendência a passar despercebidas.
Trata-se de O Peregrino, um livro escrito por Vitor Mineiro e editado pela Chiado Editora. Segundo o autor, este livro, cujo subtítulo é Em Busca do Verdadeiro Amor, “narra a vida de um jovem, o Samuel, que cedo na sua vida entra em contacto com a procura interior, o que o leva a vivenciar várias experiências místicas que vão moldando a sua personalidade e a sua forma de olhar para o mundo e para o ser humano.” Vitor Mineiro não esconde o seu interesse por “filosofias orientais e outras correntes de pensamento”, o que o levou a escrever este seu primeiro romance.
O autor deixa-nos o seguinte excerto, sobre a possibilidade da existência da reencarnação:
A possibilidade de poder voltar à vida novamente era a grande chave para explicar todas as injustiças involuntárias sofridas pelos justos. O sofrimento de quem se dedica à prática do bem, em particular as crianças, tinha levado muita gente a negar ou até a repudiar, com ódio, a existência de Deus, bem como ao afastamento da Igreja. A religião tinha sido, em muitos casos, imposta pelo medo, não dando a possibilidade aos seus fiéis de se questionarem em busca de respostas credíveis, aceitáveis e satisfatórias. Como poder aceitar o sofrimento de uma criança, vítima das maiores atrocidades, e dizer que foi vontade de Deus? Que Deus era esse que não amava os seus filhos? Deus existia – acreditava – mas não da forma defendida pelo ocidente, era muito mais do que isso. A reencarnação era apenas uma das muitas faces de Deus, que devolvia o apreço, o amor e a dedicação aos seus filhos.
Parece-me que a temática do livro já está explicita. Como referiu este professor de matemática feito escritor, este é um romance “para quem inicia a sua busca pessoal”, uma vez que “aborda e tenta responder a muitas das questões que colocamos a nós próprios ao longo da vida.”
É ler para crer.
Fica a referência.
O Peregrino de Vitor Mineiro
Chiado Editora, 2009
Até Breve!
Publicado por Fábio J. às 22:47

Dezembro 29 2009
Demorei semanas a ler meio livro, e um dia a ler o que restava. O dia-a-dia é mesmo assim, uma constante disputa com o Tempo. Poder-se-á pensar que tal dispersão no tempo melindrou a leitura. Parece-me, no entanto, que a boa estruturação da obra limitou as perdas. Refiro-me, claro, a A Melodia dos Adeus, o mais recente romance de Nicholas Sparks.
A protagonista desta história é Ronnie, uma jovem nova-iorquina de dezassete anos revoltada com o mundo, e em especial com os pais. Desde que estes se separaram, a adolescente vive transtornada com a autoridade da mãe e recusa-se a falar com o pai. Porém, naquele Verão, ela e o seu irmão mais novo são levados a passar o Verão com o pai, numa pequena cidade costeira na Carolina do Norte.
Ronnie rejeita a aproximação paterna, e afasta-se de casa. Arranja problemas, mas graças a eles começa a ver no pai a figura que faltava na sua vida desgovernada. Encontra também o amor, sentimento que a transforma, ora graças ao crescimento emocional que lhe proporciona, ora devido aos abalos que lhe causa.
Esta é, claramente, uma história de amor. Mais, é uma história romântica. O autor é conhecido pelas suas cativantes tramas amorosas, portanto outra coisa não seria de esperar. Contudo, a verdade é que é difícil não sentir a empatia pelo casal. Este é como queremos que seja, tal e qual como deveria ser e, talvez por isso, tão apaixonante.
Há, porém, outra espécie de amor que caracteriza esta obra, um amor, a meu ver, mais autêntico, mais forte e mais necessário: o amor entre a família. A relação entre Ronnie e o seu pai apresenta uma evolução encantadora. Embora, sobretudo a partir do meio da história, esta relação seja marcada por clichés, a verdade é que estes são muitíssimo bem estruturados pelo autor. Se o leitor se entregar incondicionalmente à narrativa (como sempre deveria ser mas como, pelo que vejo, acontece cada vez menos), viverá uma experiencia avassaladora. As personagens são donas de personalidades credíveis e especiais, e a acção desenrola-se em torno de acontecimentos humanamente poderosos. É fácil cair aos pés das personagens e partilhar os seus sentimentos. Confesso que chorei, como já não chorava há anos, como nunca chorei a ler um livro.
Emoções pessoais à parte, A Melodia do Adeus é um livro bem escrito, com personagens muito humanas e um enredo linear mas muito sedutor. Tem um estilo específico, como é explícito; no entanto, diria que pode tocar todos os que estejam dispostos a se entregar ao fluir dos acontecimentos.
Se é literatura leve? Não, a mim não me pareceu nada leve, mas mais uma vez depende do que cada um espera do que lê. Eu fiquei convencido, e gostava de experimentar outra obra do autor.
Resta-me dizer que o livro foi já adaptado para cinema. A estreia está prevista para Abril do próximo ano.
A Melodia dos Adeus de Nicholas Sparks
Alice Rocha, Editorial Presença, 2009
Até Breve!
Publicado por Fábio J. às 23:58

Novembro 03 2009
Chegou hoje ao fim o passatempo A Melodia do Adeus, uma colaboração com a Editorial Presença. Dos mais de 150 participantes, quase todos indicaram correctamente o título da versão original deste novo livro de Nicholas Sparks, ou seja, The Last Song. Os vencedores receberão um livro e um saco promocional.
Primeira participação, correspondente a um exemplar autografado e um saco promocional: Vanessa Montês, Almeirim
Participações nº3 e nº 19, sorteadas electronicamente, correspondentes a um exemplar e um saco promocional: Maria Azevedo, Esmoriz; e Maria Neves, Senhora da Hora
Já tive oportunidade de ler o prólogo e o 1º capitulo e confesso a minha surpresa e agrado. Literatura leve ou não, este livro cativou-me, por isso, espero que também possam desfrutar da sua leitura.
Fica prometida uma descrição mais completa desta obra assim que a ler. Para já, parabéns aos participantes seleccionados e obrigado aos restantes!
Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 23:19

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