Outubro 12 2009
No último mês, têm sido muitos os lançamentos e anúncios literários relevantes. Por essa razão, nem sempre consigo destacar o que gostaria. Mas, ainda assim, tentarei divulgar algumas das obras de referência.
Começo, desde já, com O Espião de D. João II, de Deana Barroqueiro, autora merecedora de menção no que toca à ficção histórica em língua portuguesa, na actualidade.
Depois de D. Sebastião e o Vidente e O Navegador da Passagem, a autora traz-nos a aventura vivida por Pêro da Covilhã, navegador português do séc. XV às ordens de D. João II.
O formidável Espião de D. João II possuía qualidades e talentos comparáveis aos de um James Bond e Indiana Jones, reunidos num só homem. A memória fotográfica, uma capacidade espantosa para aprender línguas, a arte do disfarce para assumir as mais diversas identidades, a mestria no manejo de todas as armas do seu tempo e, sobretudo, uma imensa coragem e espírito de sacrifício, aliados ao culto cavaleiresco da mulher e do amor que o fascinavam, fazem dele uma personagem histórica única e inspiradora.
El-rei D. João II escolhia-o para as missões mais secretas, certo que qualquer outro falharia. Talvez esse secretismo seja a razão do seu nome de família e do seu rosto terem ficado, para sempre, na penumbra.
Em 1487, Pêro da Covilhã foi enviado de Portugal, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias, a descobrir por terra, aquilo que o navegador ia demandar por mar: uma rota para as especiarias da Índia e notícias do encoberto Preste João.
Ao espião esperava-o uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelas regiões do Mar Vermelho e costas do Índico até Calecut e, também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas em lugares hostis, cujos costumes lhe eram completamente estranhos. Na pele de um enigmático mercador do Al-Andalus, o Escudeiro-guerreiro do Príncipe Perfeito realizou proezas admiráveis que causaram espanto no mundo do seu tempo.
Neste romance fascinante, Deana Barroqueiro convida-nos a seguir o trilho de Pêro da Covilhã na sua fabulosa odisseia recheada de aventuras, amores, conquistas e descobertas inolvidáveis
Mais uma livro, fruto de rigoroso trabalho de investigação, que certamente agradará aos apreciadores de uma narrativa densa e da História nacional. Nas bancas a partir do próximo dia 15.

O Espião de D. João II de Deana Barroqueiro
Ésquilo, 2009
Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 22:16

Março 31 2009
"intensa, comovente e dilacerante"
Já há muito que não publico, embora também há muito o queira fazer, sobretudo porque quero partilhar a minha opinião sobre o último livro que li: A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos.
Embora não seja a primeira vez que leia este autor português, o seu estilo foi uma verdadeira surpresa, já que neste livro ele revela uma faceta inédita, mas com muito mais sentido, pois é mais realista e jornalística. Diria até que, neste livro, ele revela todas as suas capacidades.
Trata-se do primeiro romance do autor, tendo sido publicado muito antes das obras que o tornaram famoso. Em vez de mera especulação, o autor debruçou-se sobre a realidade, contando-nos, através da ficção, verdades cruéis e assustadoras. Na verdade, a obra parece-me mais um ensaio do que propriamente um romance, devido ao predomínio dos factos históricos.
Paulino da Conceição é apenas um dos timorenses que viveu todas as barbaridades que se seguiram à saída dos portugueses de Timor-Leste e, apesar de não o considerar a personagem principal da obra, foi, sobretudo, através dele, dos seus traumas e reflexões, que pude compreender as verdadeiras implicações de tal evento. É uma personagem muito humana e crível, mas a personagem principal da obra é, sem dúvida, o povo timorense, que tanto sofreu.
Nesta obra, são narrados os principais momentos da instabilidade política vivida na, então, recente ex-colónia portuguesa. Desde a insegurança interna inicial até à independência oficial do país, passando pela catastrófica invasão indonésia, o leitor encontra nesta obra a realidade dramática vivida por um povo irmão que, literalmente, foi chacinado com uma brutalidade animal e odiosa. Desconhecia muitos dos factos que culminaram na célebre independência de Timor-Leste e, por isso, este livro surpreendeu-me e abalou-me.
A história é contada com precisão e sem melodrama, mas é intensa, comovente e dilacerante. O facto de a saber real obrigou-me a parar para pensar no quão abominável e nojenta consegue ser a espécie humana, capaz de realizar males que envergonham a civilização.
A meu ver, é uma óptima criação literária, na medida em que consegue aliar realidade e ficção na perfeição, captando a atenção e emoção do leitor, levando-o a reflectir. A narração é simples e directa e, embora por vezes caia na monotonia, adapta-se muito bem ao conteúdo, fomentando a análise e crítica dos acontecimentos narrados.
Em suma, A Ilha das Trevas é uma obra muitíssimo diferente da conhecida ficção do autor, sobretudo devido aos acontecimentos históricos analisados em retrospectiva. Vale a pena lê-la, pois é impossível ficar indiferente ao que revela.
A Ilha das Trevas de José Rodrigues dos Santos
Links: Timor-Leste (Wiki)
Até Breve e Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 22:32

Dezembro 20 2008
Sempre fui fascinado por História. O estudo de sociedades, mentalidades e modos de vida diferentes dos actuais são como partes de mundos novos que se apresentavam, fantásticos e ilimitados. Deuses, reis, impérios e culturas inéditas, um sem fim de novidades admiráveis. E o mais incrível, o que mais me faz adorar História, é, simplesmente, saber que todas aquelas histórias ocorreram mesmo, precisamente no planeta em que vivo… assombroso.
A antiguidade greco-latina concentra tudo o que mais admiro. No entanto, existe uma época sobre a qual reconheço saber muito pouco: a queda do Império Romano Ocidental. Havia um sistema político corrupto e medíocre, um poder militar decadente e inimigos selváticos, os bárbaros. Mas, afinal, qual a verdadeira realidade em ambas as partes do conflito? A Espada de Átila, de Michael Curtis Ford, ajuda a responder a esta pergunta, pois descreve a mentalidade romana, o modo de vida dos Hunos e a maior batalha da história – a Batalha dos Campos Cataláunicos.
No primeiro capítulo da obra encontramo-nos no ano 451 da nossa Era. Os feridos estão a ser recolhidos dos Campos Cataláunicos, a planície, na Gália, onde se deu a maior batalha da História, entre romanos e hunos. Mais de um milhão de homens guerrearam-se; as perdas foram demasiadas; mas o general Aécio concentra-se apenas num velho soldado inimigo, recolhido entre os feridos. Esse homem é o único que pode salvar Aécio e toda a civilização romana.
Para percebermos as causas e as circunstâncias de tal batalha, o autor faz-nos recuar vários anos, até ao momento em que o jovem Átila, segundo na pretensão ao trono huno, chega a Ravena, capital do Império Romano Ocidental, e é entregue aos cuidados da corte romana, onde servirá de garantia à submissão huna. Para garantir o bom comportamento do império, os hunos reclamam um jovem, Flávio Aécio, em troca. Cada um dos jovens terá de apreender a viver numa sociedade bastante diferente da sua. Primeiro em Ravena e depois na itinerante capital huna, os jovens tornam-se amigos, como irmãos, mas cada um mantém-se fiel ao seu povo, à sua pátria e aos seus ideais.
Embora o autor narre vários episódios entre os romanos, todos eles interessantes e bastante ricos em pormenores, é na Hunia, a capital do povo huno, um dos apelidados de bárbaros e que, anos depois da batalha descrita neste livro, viria a derrotar definitivamente o Império, conquistando Roma, que se passa muita da acção da obra. É lá que acompanhamos o crescimento de Aécio e onde ficamos a conhecer a lenda segundo a qual, no futuro, a Espada da Dinastia iria parar às mãos do rei dos hunos, concedendo-lhe o poder tão desejado.
Ficção à parte, gostei bastante da descrição deste povo insólito, sem escrita ou cidades permanentes, que passa grande parte do seu tempo montado a cavalo. O autor teve a preocupação de desmitificar algumas das ideias que normalmente se tem em relação a este povo não civilizado.
O livro é um romance histórico militar, já que, a partir de certa altura, toda a narrativa gira em torno da luta entre os dois povos, em torno desta batalha. Contudo, em momento algum me senti incomodado com isso. A história foi muito bem narrada, não havendo descuido nem nas tácticas de guerra nem nas armas utilizadas. Há uma grande dinâmica, e momentos de cortar a respiração.
Gostei particularmente do modo descritivo do autor. Ele sabe seleccionar os pormenores, sabe contar aquilo que vale a pena contar, e sabe combinar os dados históricos, com o lendário e a imaginação. O resultado é um livro admirável, de História e como a História. A vontade é ler mais ficção histórica, nomeadamente aquela escrita por Michael Curtis Ford.
Desculpem o tamanho do texto. História e Literatura combinadas dão nisto.
 
A Espada de Átila de Michael Curtis Ford
Mais informação: Batalha dos Campos Cataláunicos (wiki)
Históricas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 19:45

Novembro 06 2008
Começou hoje a viagem do elefante. O mesmo seria dizer, de uma forma mais simples mas certamente menos dedicada, que hoje foi oficialmente lançado A Viagem do Elefante, o novo livro de José Saramago.
Não posso deixar de confessar que, apesar de ainda só ter lido um livro seu (encontro-me a ler um segundo), sou fã do autor, do seu estilo. Não, não sou fã. Sou um grande admirador, o que, parecendo que não, é bastante diferente. Seja como for, mais do que nunca estou atento à bibliografia do autor. E este novo livro já está na minha estante.
Segundo Saramago, este livro, que poderia não ter sido escrito, tais foram os problemas de saúde que afectaram o autor pouco depois de o iniciar, “é uma metáfora da vida humana”. Ele explica: O “elefante [desta história] que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas”, referiu. “Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante (...) no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso.”
O livro é um novo conto histórico do Nobel português, baseado em pouquíssimos dados, e promete dar que pensar. O autor resumiu a obra:
"O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550, 1551, 1552. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é isso, é essa viagem."
Eis a sinopse:
Em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que há dois anos se encontra em Belém, vindo da Índia.
Do facto histórico que foi essa oferta não abundam os testemunhos. Mas há alguns. Com base nesses escassos elementos, e sobretudo com uma poderosa imaginação de ficcionista que já nos deu obras-primas como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago coloca agora nas mãos dos leitores esta obra excepcional que é A Viagem do Elefante.
Neste livro, escrito em condições de saúde muito precárias não sabemos o que mais admirar - o estilo pessoal do autor exercido ao nível das suas melhores obras; uma combinação de personagens reais e inventadas que nos faz viver simultaneamente na realidade e na ficção; um olhar sobre a humanidade em que a ironia e o sarcasmo, marcas da lucidez implacável do autor, se combinam com a compaixão solidária com que o autor observa as fraquezas humanas.
Escrita dez anos após a atribuição do Prémio Nobel, A Viagem do Elefante mostra-nos um Saramago em todo o seu esplendor literário.
Eu não vou deixar de ler.
A Viagem do Elefante de José Saramago
Até Breve!

 

Publicado por Fábio J. às 22:08

Outubro 21 2008
Deana Barroqueiro sobressaiu enquanto criadora de romances inspirados em personagens históricas com D. Sebastião e o Vidente. Agora, a autora volta às bancas com O Navegador da Passagem, obra cujo protagonista é Bartolomeu Dias, capitão português na época dos Descobrimentos.
Mais um romance histórico que promete narrar muito do que foi injustamente esquecido no tempo. Eis o que podemos encontrar nesta obra:
Quando a Armada de Pedro Álvares Cabral, depois de ter descoberto as Terras da Santa Cruz (Brasil), prosseguia a sua viagem para a Índia um grande cometa surgiu nos céus… Naquele tempo, os cometas eram tomados como um prenúncio agoirento de desastres e Bartolomeu Dias, capitão de uma caravela dessa armada de treze navios, tem o pressentimento da morte e recorda a sua vida feita de viagens e aventuras.
A viagem da descoberta da passagem entre os oceanos Atlântico e Índico – um feito extraordinário que abriu o caminho da Índia a Vasco da Gama – é aquela que Bartolomeu relembra com maior intensidade, em particular uma história de amor proibida e condenada ao fracasso e à tragédia com uma escrava que transportava a bordo da sua caravela e teria de desterrar nos lugares por si descobertos.
Amargurado pela ingratidão dos dois reis a quem serviu, que não souberam reconhecer e premiar os seus extraordinários serviços, Bartolomeu Dias recorda igualmente os acontecimentos, as intrigas, crimes e jogos de poder dos seus senhores, dos quais foi testemunha nos breves momentos que passou em terra e na Corte.
Tal como o livro anterior, o qual ainda não tive oportunidade de ler, também este me despertou interesse, não fosse ele sobre a mais admirável época da nossa história. Muito deve haver para contar e, por isso, muito deve haver para descobrir.
Para um contacto mais próximo com a obra, não deixem de visitar a página da editora onde podem encontrar um vídeo promocional com a autora e um excerto áudio da obra.
O Navegador da Passagem de Deana Barroqueiro
Links: Blog da autora
Boas histórias!
Publicado por Fábio J. às 21:26

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