Janeiro 09 2009
Hoje nevou. Pela primeira vez, vi neve cair nesta zona. Trata-se de um fenómeno meteorológico inabitual e que, por isso, surpreendeu muita gente. Não durou muito e não causou problemas. Fez-me, no entanto, pensar nas consequências de alterações climáticas duradouras, como o aquecimento global, um problema explorado no último livro que li em 2008.
Em O Sétimo Selo, José Rodrigues dos Santos volta a apresentar como personagem principal Tomás Noronha, especialista em línguas antigas e criptanálise. Apesar disso, o livro trata dois assuntos bastante actuais: o aquecimento global e o iminente fim do petróleo.
Neste romance, mais um vez o autor conduz o protagonista numa aventura em busca da resolução de um mistério irresolúvel. Apesar de achar que em muitos aspectos este livro supera os dois precedentes, foi, sobretudo, a inutilidade da demanda de Tomás que mais me desiludiu. O professor universitário não é, neste livro, mais do que uma sombra que nos acompanha ao longo da leitura.
A narração da vida pessoal e familiar do protagonista nunca me aborreceu, mas há sem dúvida um progresso neste ponto, muito embora tal possa ter acontecido só pela diminuição das páginas que lhe foram dedicadas. É que a quebra da narrativa principal não é agradável, e o desperdício de páginas com dramas e dilemas banais não contribui, de todo, para o prazer da leitura.
Embora ponha em causa alguns pormenores, a exposição do problema actual com as reservas do petróleo e com aquecimento global pareceu-me bem explorada. Aliás, sendo essa a provável intenção do autor, este é, claramente, um livro que serve o seu propósito. É impossível deixar de concordar com a raiva e alarmismo das personagens. Seja ou não um grande romance, este livro alerta. É verdade que não diz nada de novo, e repito até com alguma frustração: nada de novo, mas aumentou a minha preocupação e fez-me ver quão passiva é sociedade, nomeadamente eu, acerca destes problemas. É preciso fazer mais, e isso está explícito na obra, não fosse esse o mistério a resolver.
Seja como for, trata-se duma leitura interessante e estimuladora, que se lê num fôlego. Gostei do que li, mesmo tendo-me deparado com mistérios que não o eram e com situações previsíveis. Afinal, um livro que me agarrou durante 500 páginas e me avivou a consciência ambiental e social tem, sem dúvida, os seus pormenores notáveis.
Sem dúvida uma boa forma de terminar 2008.

O Sétimo Selo de José Rodrigues dos Santos

Aproveitem o frio para ler...

 

Publicado por Fábio J. às 22:22

Setembro 22 2008
Estive há pouco a ler o que escrevi, no início do ano, sobre o Codex 632, de José Rodrigues dos Santos. Fi-lo para poder comparar esse livro com o que agora acabei de ler, A Fórmula de Deus, do mesmo autor, e surpreendi-me com algumas observações que fiz e que já mal recordava.
Enquanto que o Codex 632 se desenvolve em torno de factos históricos, no livro que o seguiu o autor baseou-se em teorias e hipóteses científicas para explorar uma possível área de aproximação entre ciência e religião. Como resultado surgiu um romance bem estruturado e mais cativante do que o anterior. O drama familiar do protagonista, Tomás Noronha, também se conjuga bastante harmoniosamente com a acção principal, completando-a, o que constitui uma positiva evolução face ao romance anterior.
Esta história remonta a uma antiga conversa entre Einstein e o então primeiro-ministro israelita, sobretudo acerca de armas atómicas e da existência de Deus, conversa essa secretamente gravada pela CIA. Anos mais tarde, Tomás Noronha, numa visita ao Cairo, é interpelado por Ariana Pakravan, uma cientista iraniana que traz consigo a cópia de um documento inédito, um velho manuscrito de Einstein com um estranho título e um poema enigmático: A Fórmula de Deus.
Depressa Tomás se torna num peão às mãos da CIA e dos iranianos, empurrado pelas intrigas políticas para um jogo que não pode perder. Colocado no centro da crise nuclear iraniana, o historiador português vê-se a par com diversos conceitos e teorias de várias área científicas, principalmente da física e da matemática. Não sei se é por lidar diariamente com alguns daqueles conceitos, mas a verdade é que, a certa altura, achei que autor exagerava nas explicações, tornando-se insistente e um pouco redundante. Momentos houve em que, incapaz de justificar teorias que os próprios físicos não conseguem fundamentar, o autor repetia o que já antes havia dito, fazendo-o vezes sem conta. Apesar disso, sem dúvida o autor sabe usar a especulação científica a seu favor, criando um romance interessante.
A relação com a religião, apesar de tudo, pareceu-me verosímil e a mais interessante. É verdade em que, por vezes, a conjugação de ideias pareceu-me um pouco forçada, mas toda a base mística da obra constituiu uma curiosa oportunidade de reflexão.
No final de tudo, a descodificação da fórmula de Deus, prova da existência de Deus, não foi o clímax esperado, pois, no fundo, não acrescentou nada de novo. Ainda assim, não deixou de ser bastante satisfatória.
Resumindo, acho que autor conseguiu usar a muita informação científica a seu favor, criando uma obra interessante e que valeu bastante a pena ler. Há quem o considere literatura light mas não vejo porquê ir por ai: o livro cumpre o seu propósito e enriquece o leitor.
Agora só me resta ler O Sétimo Selo, que espero que seja ainda melhor.
A Fórmula de Deus de José Rodrigues dos Santos
Boas Leituras!
Publicado por Fábio J. às 22:01

Agosto 05 2008
Como descrever um livro que manipula e enlouquece, oferecendo ao leitor palavras claras mas portadoras de um doentio sentido de demência? Não importa. O mais provável é a demência e loucura já estarem cá, há muito tempo. O livro apenas as despertou.
A Trilogia de Nova Iorque, conhecida obra de Paul Auster, é composta por três narrativas: Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado à Chave. As histórias são diferentes, os enredos são diferentes, e contudo há sempre algo ou alguém que as ligam, tornando-as complementares.
Cidade de Vidro é, dentre as três, a minha favorita. E digo favorita porque, por mais ligadas que as histórias possam estar, a minha opinião difere de acordo com a narrativa. Nesta primeira Quinn, um escritor solitário, troca a sua vida e transforma-se numa figura transtornada e louca. Muito bem construída, esta história tem o poder de transportar o próprio leitor para uma outra dimensão, despertando-o para o que realmente é, ou melhor, para quem realmente é.
Tal como a precedente, Fantasmas peca pelas situações óbvias, mas revelou-se igualmente insólita. Na verdade, diria que a similitude entre ambas as histórias chega a ser um aspecto negativo, mas nada que impeça o leitor de, mais uma vez, se embrenhar nos complexos labirintos psicológicos criados pelo leitor. Mais um vez o protagonista, um detective contratado para vigiar um homem a tempo inteiro, sofre uma metamorfose psicológica e social.
O Quarto Fechado foi a desilusão. O autor alterou o estilo e não gostei do resultado. Momentos houve em que a leitura não foi agradável, e espremendo a narrativa pouco fica. Por um lado é a história mais linear das três mas, ao contrário das anteriores, desperdiça muito em parágrafos desinteressantes e completamente inúteis. Nela, um jovem comentador é forçado a voltar ao passado, acabando por viver a vida de um velho amigo desaparecido.
No fundo, tudo se liga por ser alucinante e perturbador, resultado de um bem ministrado jogo de realidades, no qual vidas são exploradas e alteradas. São apenas causas e consequências. Nada passa de vontade e realidade.
Paul Auster revelou-se, assim, um autor de referência. De certa forma o livro perturbou-me e alterou-me; sou sua vítima, mas não me importo. É para isto que os livros servem e por isso valeu a pena.
A Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster
Boas Leituras!

 

Publicado por Fábio J. às 22:51

Janeiro 24 2008
Muito se tem especulado, inclusive aqui neste blog, sobre o valor do sector literário, não a nível cultural ou social, mas a nível financeiro. Estratégia, marketing, zelo profissional, enfim, são várias as causas possíveis para o silêncio das editoras no que toca aos números, sejam eles lucros ou vendas. No entanto, esta tendência parece estar a mudar. Será apresentado, amanhã na Biblioteca Nacional, o “mais exaustivo inquérito ao sector do livro”, encomendado pelo Ministério da Cultura e realizado por oito investigadores ao longo do último ano. Este estudo fará um levantamento das tiragens dos livros, postos de trabalho do sector e adaptação às novas tecnologias. A ver vamos se é desta que fica esclarecido o quão frágil (ou não!) é este sector.
Um dos escritores que certamente passa ao lado de qualquer possível (ou imaginária?) crise do sector é José Rodrigues dos Santos, o popularmente conhecido jornalista português. Há muito namorava a obra que o consagrou como escritor de best-sellers: O Codex 632.
As expectativas eram muitas mas, embora não decepcionante, a obra revelou-se aquém dos vários elogios a ela atribuídos e, verdade seja dita, do que seria de esperar dum livro tão vendido. Não, não o achei mau... simplesmente acho que podia ser melhor.
Há quem apelide o autor de “Dan Brown português”, eu próprio já o fiz e volto a faze-lo, com uma excepção: ambos especulam, ambos baseiam-se em factos e dados incertos, ambos apresentam uma escrita simples, mas José Rodrigues dos Santos brilha e estimula menos.
Como grande apreciador de História Mundial, uma nova teoria sobre a origem de Cristóvão Colombo não podia deixar de parecer mais interessante. Usando Tomás Noronha como um peão num tabuleiro de xadrez, o autor desenvolve uma tese credível mas pouco clara e muito repetitiva sobre a origem do descobridor da América. Conseguiu convencer-me, e até maravilhar-me com tais especulações e factos, mas a maneira como o faz pareceu-me pouco inteligível. Tantas referências, tantas datas, tantos excertos naquela e na outra língua, contribuíam para a confusão. E as descobertas, raramente partilhadas com o leitor, apenas lhe são apresentadas quando o protagonista as compreendeu, fazendo desta tentativa de criar expectativa uma barreira ao entusiasmo.
Paralelamente, acompanhamos a vida familiar do protagonista. E se por um lado esta história secundária dá um novo ritmo à obra, por outro parece-me bastante hiperbolizada. A verdade é que, se inicialmente pouco interesse lhe atribuía, à medida que as páginas iam sendo viradas este enredo começou a chamar-me a atenção, culminando num desenlace emotivo. No fundo, esta sub história serviu de bóia de salvamento a outra principal que apresenta um desfecho pouco animador, apesar de original.
Resumindo: A teoria acerca do descobridor é convincente e bem fundamentada, embora apresentada duma forma um pouco mal adequada a um romance. Apesar das minhas críticas, gostei do livro e pretendo ler os restantes da “trilogia Tomás Noronha”, embora não o vá adicionar à minha lista de favoritos. Por outro lado, a obra serviu para estimular o meu interesse sobre romances que especulam a História da época dos Descobrimentos, uma área bastante desenvolvida na nossa literatura.

O Codex 632 de José Rodrigues dos Santos
Boas Leituras!!!
Publicado por Fábio J. às 23:03

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